Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

domingo, 28 de abril de 2013

PROCESSO DE LUTO

Quando se perde alguém violentamente, de modo repentino ou inesperado, quem fica permanece nesse limbo por um tempo indeterminado. É comum pessoas em processo de luto por morte abrupta serem tomadas por um estado de catatonia, semelhante a um morto-vivo, ou a um robô, que passa a agir no "piloto-automático", sem domínio ou vontade de controlar suas ações. Uma parte continua vivendo, pois entende ser necessário, mas a outra não está lá. A alma fica dividida e constantemente, o enlutado sente que morreu também e que sua história nunca mais será a mesma.De fato, nunca mais será, pois a morte marca a alma. Entretanto, estamos na vida para sermos transformados a partir das experiência que o acaso (será?) nos propõe. A superação só se dá a partir de um longo processo e ela não significa esquecer, fingir que não aconteceu ou ainda não sentir dor quando lembrar. Superar significa apenas aceitar e continuar.Mas como aceitar algo que não faz sentido? Algo que não vem com avisos, que não parece ter um por quê dentro da lógica do merecimento? Como aceitar a morte de alguém bom, que tinha uma vida enorme pela frente? E que o destino levou em segundos, sem nos ter orientado para aquele momento? Como continuar sem ter mais vontade de viver, sem ter um sentido que nos norteie?
DA DOR À ACEITAÇÃO
Podemos tomar como exemplo o caso recente do filho de Cissa Guimarães, de 18 anos, levado pelas circunstâncias de modo violento. Uma reação bastante comum inicial seria a de procurar culpados, alguém em quem se possa descarregar a dor. O fato é que isso, além de gerar novas dores, não traz a pessoa de volta. Alguns dizem que buscar justiça traz alívio. Entretanto, no caso de acidentes e não de crimes intencionais, culpabilizar alguém só agrava a situação.Há fases no processo de aceitação de morte. A estudiosa Elizabeth Kluber-Ross, autora de vários livros sobre o tema, alerta que em geral, diante da morte qualquer ser humano passa por cinco estágios: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Esses estágios não necessariamente são subsequentes, podendo estar misturados e serem vividos ao mesmo tempo.Negar é não poder ver e usar recursos para afastar a realidade que dói. Entre esses recursos temos uma infinidade de ações: acreditar que o morto ainda voltará, manter todos os objetos dele intactos, como se estivessem à espera do falecido, ou ainda negar a dor da situação, indo se divertir de modo desproporcional ao que o momento pediria, ou entregando-se a algum vício...Ter raiva é querer culpar alguém. É procurar um responsável pela dor. Ter raiva é pensar que poderia ter sido diferente se o fulano não tivesse errado nisso, se o médico tivesse tentado aquilo, se a pessoa que ficou tivesse chegado minutos antes... A raiva não permite encarar o processo como algo que fugiu do controle, querendo devolver aos mortais o domínio do destino. A raiva é necessária para descarregar, mas é um esforço quase vão que nos liga ao passado.Barganhar é tentar negociar com o destino. Fazer magia, fazer promessa, buscar psicografia. Esses recursos são importantes, mas ainda demonstram uma ligação com um passado que não se quer deixar ir. Ouvir uma palavra psicografada não deve ser um recurso proveniente de uma busca desesperada por contato, mas sim, algo que espontaneamente surge, se for essa a crença de quem fica.A depressão é o último estágio antes da aceitação e não é por acaso. Quem se deprime está mais perto de ver as coisas como elas são e ver a devastação que a morte causou. O perigo desse estágio é o tempo de permanência. A depressão é a maior ladra da vida e por isso deve ser combatida quando o tempo é superior a seis meses e a intensidade tira o enlutado das atividades que o ligam à vida (trabalho, convívio familiar, convívio social, saúde, fé no futuro).Finalmente, a aceitação é o processo que nos torna capazes de ver, tocar, falar sobre a morte e ao mesmo tempo, deixá-la ir para onde tiver que ir, longe de nossos domínios, de nosso controle racional. Deixar ir não significa esquecer, tampouco não sofrer nunca mais. Deixar ir é fazer as pazes com o tempo, com novas chances para quem ficou, com a única certeza de que absolutamente tudo muda e que é preciso se transformar junto com a vida e com a morte.

Encontrei esse texto no blog: Amigos solidários na dor e no luto.

 
Que me fez pensar e refletir muito sobre todo o processo do luto, infelizmente me sinto experiente no assunto, queria eu morrer na ignorância, mas não, de luto eu entendo bem, passei por quase todas essas fases, não necessariamente nessa mesma ordem, pulei algumas etapas, atropelei outras, mas insanamente voltei a cada uma delas vivendo todas as fases do processo do luto. Acho até que vivi essas fases de trás para frente, pois a primeira dor a sentir foi a depressão, a tristeza foi imensa, a angustia me matava aos poucos, me torturava, me enlouquecia. E com muita ajuda consegui atravessar esse processo. Ao mesmo tempo que a tristeza me dominava eu negava, não podia acreditar, ao dormir todos os dias eu pedia para não mais acordar e ao acordar saia em busca do berço, do choro, dos resmungos da Letícia por querer seu tete. Nos seios ainda havia leite e na hora em que ela costumava mamar os seios ardiam, o leite vazava... Era demais para minha cabeça, não podia entender, não era capaz de compreender. Então a raiva tomava conta de mim, sentia raiva de tudo, da doença, dos médicos, do hospital, da humanidade, da vida e principalmente de Deus que embora eu passasse a nega-lo continuava a sentir raiva de mim mesmo por ter acreditado que ele existisse e que abençoaria todo aquele processo para que tudo desse certo. Barganhar com o destino também fez parte do meu processo, talves tenha sido ele o ultimo no estagio até então, já que ela não estava mais aqui eu precisa entender onde é que ela estava, e devido a isso mudei tudo o que havia em mim, oque passei minha vida inteira aprendendo, acreditando, passei acreditar em algo que mais me convia, que menos me intrestecia, que mas fazia sentido. E agora sim, a ultima fase do luto, aquela que ainda hoje não sou capaz de superar, a da aceitação, Deus, se aceitar significa voltar a viver eu inicio um novo estagio de luto o de sentir medo, o de desacreditar, porque como poderei aceitar para voltar a viver, viverei eternamente sem vida, na sombra, me escondendo da luz pois aceitar que uma criança morra aos 6 meses de vida após complicações no pós operatório de uma cirurgia cardíaca não entra em minha cabeça, talvez entraria se a criança de fato não fosse minha filha, fosse talvez filha de um parente ou de um visinho, mas a minha não... Talvez eu seja uma pessoa ruim ao pensar dessa maneira, se for assim eu digo que o mundo é ruim pois a vida continua igual para todas as pessoas, só a minha e do meu marido mudou, afinal a filha é nossa!!
Ao contrario do que algumas pessoas pensem não faço drama, a filha que partiu é a minha, a dor é minha também, ninguém nesse mundo fora meu marido e filhas são capazes de saber o que isso siguinifica, meu medico psiquiatra diz, jamais eu saberei o que você sente, porque eu nunca serei mãe, serei pai um dia e espero não perder meu filho, mas ainda que eu perca eu não saberei o que sente uma mãe ao perder seu filho. E diz também, Fabi sua alta esta próxima, sinto que você evoluiu no tratamento, já passou e superou todas as fases e a nova gravidez a prova de superou inclusive a que você nega ter superado, a da aceitação, você aos poucos tem se permitido a viver, vivera outra historia, terá outro filho e uma vida parcialmente feliz, isso não significa que esquecera a Letícia que tão pouco deixara de ama-la, significa que inconscientemente esta aceitando o fato que não se pode mudar, dizendo um adeus meu Anjo, mesmo que esse adeus seja com a esperança de em breve reencontrara com ela no céu e vivera com ela tudo o que foi interrompido pela morte.
E eu fico a pensar???
Será?
Óh Deus, como dizer adeus a um pedaço meu?
Forçadamente estou tentando dizer um até logo, mas mesmo assim esse até logo tem sido mais difícil e mais doloroso do que todos os demais processos do luto.
Não aprendi dizer adeus.
É minha pequena de cachinhos, com cheirinho de suco de uva, é minha, minha, minha filha querida, amada Letícia.
 
 

Nenhum comentário: