Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Como dói

Um dia sem que eu me desse conta minha amiga Marina entrou dentro de mim e transformou em palavras sentimentos e sensações que estavam exprimindo minha alma, vejam:



Vamos ser sinceros.
 Como doí!
 Como dói ver a felicidade dos outros. Não, eu acho que não sou uma pessoa horrível. Talvez seja, não sei. Mas a verdade eh que doí. Vou explicar.
 Dói muito ver aquela conhecida com uma barriga enorme, e ter a (feliz) certeza de que aquele bebe sera saudável, lindo, perfeito.
 Dói muito entrar no facebook e ver que a vida das pessoas gira sim em torno dos filhos - e pq não deveria? Fotos de bebes que acabaram de vir ao mundo, fotos destes bebes fazendo os primeiros passeios de carrinho (como eu sonhei!), fotos dos colos calorosos das vovós, fotos dos domingos ensolarados - não pelo sol, pelo sorriso dos pequenos.
 Não eh a felicidade dos outros que me dói (assim como a tristeza alheia não me deixa feliz). Mas ver essa alegria toda me lembra de como eu deveria estar alegre agora. Me lembra de que não estou. Me lembra de que a minha tristeza eh (no minimo) do tamanho da felicidade de quem carrega o seu recém nascido no colo. E isso eh muito.
 Eh ate engraçado pensar que ao mesmo tempo em que aquelas pessoas estavam achando o motivo da vida, eu estava perdendo o motivo da minha.
 Eh engraçado ver a que ponto chega a limitacao humana, e onde ela cruza com maldade: ninguém sabe mais como te olhar, o que te dizer, como... Preferem te ignorar, pois a morte incomoda, a morte de um bebe incomoda mais ainda, e as pessoas, limitadas por natureza, não sabem como reagir. Ate que um dia a limitacao alheia vira maldade mesmo. Por exemplo, naquelas situacoes em que um suposto colega eh capaz de parabenizar outro colega pelo filho, lindo (claro), numa foto postada logo acima do anuncio da morte do seu, a qual ele preferiu ignorar.
 Não sei, não vi, serio que morreu? O filho dela? De que???
 A maldade chega num nível em que outras gestantes, muito conhecidas, escolhem te ignorar ate em locais públicos. Provavelmente estão sem jeito, pois elas estão realizando seus sonhos, e o meu sonho morreu. Mesmo assim... Tudo deveria ter um limite, e em algumas situacoes eh preferível ouvir uma ladainha qualquer do tipo: Vc ta bem??? Ainda bem que ele morreu pequenininho ne, senão seria pior... - do que simplesmente ser ignorada.
 Vai por mim. Fale, mesmo sem saber oq falar. Pode ate ser besteira, pode ate doer um pouco, mas vai doer menos do que ser ignorada.
 Ate que ponto chega a crueldade humana? Alias, posso chamar de crueldade? Por favor?
 Estou ficando cansada. Cansada de ser altruísta! Cansada de ser politicamente correta, quando quem perdeu o filho fui eu! Cansada de ouvir de psicólogos o que ja sei e passo os dias repetindo pra mim mesma: as pessoas são limitadas, a morte incomoda, as pessoas não sabem como reagir e não podemos julga-las por isso.
 Mas quem foi que inventou essa porcaria??
 Desculpa, mundo, mas eu quero julgar. Quero julgar as pessoas pela reacao que tiveram a morte do meu filho SIM.
 Quero considerar amigos aqueles que se fizeram presentes, choraram junto, me ajudaram quando eu desabei. Quero julgar colegas aqueles que ofereceram palavras de conforto, se colocaram a disposicao, e mantiveram alguma distancia. Aqueles que de vez em quando avisam: estou aqui!...
 Quero considerar indiferentes aqueles que deixaram palavras vazias e so. E quero considerar maldosos os que propositalmente me ignoraram no supermercado. Aqueles que se recusaram a entrar na minha casa para fazer entregas ou reparos apos conhecer a minha historia. Aqueles que não evitaram postar fotos de seus momentos mais felizes com seus lindos pequenos logo acima do anuncio do óbito do meu, obviamente ignorado.
 Maldosos. Cruéis. Inimigos? Talvez.
 Então eh isso, ta Deus? Ta, psicólogos? Ta, budistas? Se me permitirem, vou regredir um pouco. Se eu sou responsável pelo meu crescimento pessoal, posso muito bem escolher "decrescer". Diminuir. Emburrecer um pouco. Eu sei que os seres humanos tem limitacoes, e que não devemos esperar mais do que são capazes. Mas so desta vez, quem vai ser limitada, sou eu.
 Ta?

 
Arrepiada dos pés a cabeça, pensando quando foi que a Marina Medeiros entrou dentro de mim e com palavras expressou tudo o que sinto, tudo o que penso??? Perdoa-me Marina mas vou copiar seu texto pois a impressão que tenho é que é um pouco meu também, como um pouco de cada de nós que estamos aqui vivendo o mesmo tipo de dor... Já comentei outra vez que tudo o que você escreve toca profundamente em minha alma... É muita dor, é muito amor aqueles que deveriam estar aqui agora... Estranho falar, mas ao contrario do que as pessoas pensem a gravidez não faz como que eu me sinta melhor e sim com que eu fique ainda mais pensativa, ainda mais reprimida, ainda mais triste, sentindo ainda mais amor e saudades por aquela que além de filha se tornou a mais especial.
 

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