Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

sábado, 14 de setembro de 2013

Ar que eu respiro



" Haverá, algum dia, sentido permanente? Quero dizer, uma mãe que segura nos braços teu filho risonho, logo morto; encontrará um dia o propósito perfeito? Eu acredito que não, e que o sufocamento - independente se tiver passado um dia, um mês, dez meses, dez anos - faz parte do que Deus quer para nós e só assim, lacrimando incessantemente em silêncio ou aos berros de um porquê ou até mesmo sentindo raiva e quebrando tudo o que vê pela frente, só assim, é possível aliviar o coração o suficiente para voltar ao cotidiano. Nenhuma mulher é a mesma após a concepção. Quem dirá uma mãe que vive sem criar o que gerou. Sim. A mãe. Esta é a que mais sofre, não é porque sou mãe, é porque percebo: Sentir saudades todos sentem - até sem conhecer e compadecendo-se assim daquela vidinha que se esvaiu. Viver a saudade é diferente. Obviamente, me preparei para esse dia. Organizei o que faria em seu decorrer, justamente para manter meus pensamentos ocupados afim de esquecer que hoje faz dez meses. Liguei o som no último volume e nada melhor para se livrar de pensamentos empoeirados do que limpar a poeira dos móveis. Foi aí que, ao abrir uma das gavetas da estante na sala, e folhear alguns papéis que seriam descartados, me deparei com uma certidão de óbito. A palavra óbito associada ao nome do Benício logo abaixo é algo muito complexo para a minha cabeça. Não é assim que vejo meu filho, como um morto. Ele vive! Ele me encanta! Ele é o ar que invade os meus pulmões! Ele é cada pulsação do meu coração! Ele é meu amor supremo! Me resta, continuar mentalizando positividades para que meu interior entenda que viver sem ter o Benício dói, mas relembrar o quão foi bom ter ele é uma dádiva. Então, eu sigo, com passos trêmulos, em silêncio, guardando todos os papéis e rasgando a certidão que não tem espaço no meu coração. "

Por Lelly Barrili


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