Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

3 anos e 27 dias

De repente, uma conversa nos leva de volta ao momento agudo da dor...
Hoje foi assim, num grupo de mães começamos a falar sobre o momento do adeus, foi triste ver cada mãe contar sobre o ultimo momento de vida... Foi triste relembrar nossos últimos momentos juntas. Poucas coisas compreendi durante esses 3 anos, entendi que não adianta questionar, não adiante se revoltar, foi preciso encontrar um caminho, não o melhor caminho, ou o caminho politicamente correto, sim o caminho que me fizesse sofrer menos, pois o sofrimento é sim inevitável...
O fato de referir a ela como anjo não é porque eu queira com isso santifica-la, mas sim porque eu não sou capaz de imagina-la de um outro modo...
A certeza de que ela vive consiste na certeza de que dentro de mim ela permanece intacta, minhas lembranças são tão fortes e evidentes que me fazem sentir cheiro, ouvir seus balbuciados, e puxa, como tudo isso é real...
A dor da partida não se compara a dor do sofrimento ao ve-la sofrer durante alguns dias, aqueles dias sim atormentam minhas lembranças, fazem meu coração doer a ponto de querer ranger os dentes e uivar feito um animal ferido, feito eu mesma...
Não fui capaz de me despedir no momento do sepultamento, nem ao visitar sua sepultura, nem quando fez um ano, dois anos, três anos... A Psicologa me disse: Fabi é hora de se despedir de sua filha, nunca mais voltei la, e desde então fiquei a pensar, e a conclusão é sempre a mesma... Não sou capaz, despedir-me meu amorzinho sera como despedir-me de mim.
Enterrar uma filha, escultar a terra batendo sobre o cachão é realmente enlouquecedor, foi ali, naquele instante que comecei a enlouquecer... Enlouqueci naquele dia e todos os dias enlouqueço um pouco, pois não como lembrar e compreender...
Hoje entendo que a dor muda sua postura, o que antes era brutal hoje apunhala-me aos poucos, com sutileza faz agonizar meu coração...
Se a vida me deu motivos para sorrir, a morte me faz chorar... Não ha como dividir a morte da vida, não ha como sorrir sem chorar...
E assim vou levando, sorrindo e chorando...
Quem não tem filhos jamais compreendera,
Quem só tem filhos vivos, com certeza me questionara,
Somente quem tem o coração dividido entre o céu e a terra é capaz de me entender sem me julgar.
Ouvir uma mãe dizer que se mataria se essa tragedia acontecesse com ela desperta um sentimento de rancor eterno, afinal mãe nenhuma ama mais seu filho do que eu amo as minhas, e eu estou aqui vivinha da silva, não que eu não tenha sentido muita ou inúmeras vezes a vontade de morrer, mas o poder de viver ou morrer não nos pertence, como li esses dias, não é tão simples assim... Nenhuma mãe morre após enterrar seu filho, tenho certeza que a grande maioria deseja isso, mas não morre, o que morre é a fé, a esperança de que a vida fora boa, a paz interior, a plenitude, a ingenuidade, entre outros sentimentos e emoções, morre-se aos poucos todos dias, mas não se espante ao me ver falar que nasce também, nasce uma angustia sem fim, uma tristeza tão profunda que não se esconde por de trás de um sorriso, uma revolta sobre tudo o que acreditávamos, uma incredulidade, uma incerteza, uma vida completamente diferente, ao me olhar no espelho encontro outra pessoa, um olhar sem brilho, parado, um sorriso que tenta desfaçar a todo momento, uma palidez, uma ruga aqui, outra ali, um fio de cabelo branco no meio de tantos que hoje e ontem não tive animo para pentear, um sobre peso difícil de equilibrar, um arrepio no calor, uma soadeira no frio...
Tranquilizantes fazem parte da minha rotina, porque?
Porque me sinto estressada, enjoada, agitada, ansiosa, irritada, TRISTE.
Não ha planos para o amanhã,
Amar as filhas que aqui estão, viver para essas filhas, agradecer por essas filhas, orar para que aquela que no céu foi morar de vez em quando possa vir me visitar... Isso é tudo, tudo o que almejo para o futuro...
Um sonho, encontrar uma resposta que me traga certeza, que me traga paz, que me seja favorável, que me traga de volta a fé e a esperança de minha filha um dia reencontrar...
Ja li ou ouvi que coração de uma mulher é um oceano cheio de mistérios...
3 anos e 27 dias que vivo sem um pedaço de mim...
Oh metade afastada de mim...
Só queria me sentir completa novamente, só queria minhas filhas comigo... Todas as filhas!!!
#Amor_Eterno

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