Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mães de Anjos


Quem acredita que no céu exista uma colonia onde nossos filhos estão?
Por aqui também se formou uma colonia, colonia de Mães enlutadas.
Sim, é isso que nos tornamos...
Gostaria de nomear nosso estado de mães sem filhos, mas não há nome que se enquadre a nós, não somos viúvas, nem órfãs, somos o que???
Nem nome tem...
Com base de que nossos filhos ao partirem se tornaram Anjos, rotularemos assim...
Mães de Anjos!!!
Mais quem disse que queríamos ser???
No fundo, no fundo, como conseguimos sobreviver a isso?
Me pergunto sempre, exatamente, como chegamos até aqui?
Algumas com 1, 2, 3, 4, 5 anos ou mais sobrevivendo a essa condição tão desumano...
Mas como?
Como continuamos viva após sofrer tremenda perda?
Como outras mães enchem o peito para dizer:
“ Eu não conseguiria” ou “Morreria junto”
Nós também acreditávamos nisso, não é verdade?
Quantas de nós também não falamos isso, que não suportaríamos jamais esse tipo de dor, que se um dia perdêssemos um de nossos filhos morreríamos juntos.
Mas estamos vivas, meio que mortas, devo confessar, ainda sim vivas, ainda que oca, sem energia, sem capacidade de sorrir verdadeiramente, trazendo no peito a dor da morte, morte de nossos filhos, de tudo o que deixamos de viver, tudo o fomos um dia....
Quantas saudades, quantas dores carregamos em nossos corações que doem, doem, doem...
A saudade que ficou machuca demais, e não é nenhuma forma de expressão, ela machuca, e machuca mesmo, é literal... Deus, essa dor é real, faz parte da gente, convivemos com ela 24 horas por dia, todos os dias.
E assim seguimos, meio que vivas, quase que mortas, algumas de fato mortas...
Sobreviver a essa tragedia não foi uma questão de escolha, nosso corpo sobreviveu para contar a historia, mas acredito que de fato nossa alma tenha partido junto a eles, os acompanhou naquele triste dia, não foi capaz de larga-los, subiu junto para cuidar deles no céu...
Quer saber?
Parte de nós apenas permanece aqui, aquele lado pleno enterremos junto a eles, pouca e muita coisa nos sobrou, pouco do que eramos, resto-nos apenas lembranças, e do muito que se acarretou em nossas costas para carregarmos até o fim.
E há quem ache que sobreviver a morte de um filho é uma questão de superação, é uma vitória...
Se pudessem nos entender???
Sobreviver não nos foi uma escolha...
A ordem natural se inverteu para algo que ninguém é capaz de assimilhar...
Se pudéssemos explicar, tenho certeza de que ninguém abriria a boca para dizer:
Eu morreria junto a eles!!!
Nós também morreríamos, acredite! Mas sobreviver, faz parte do castigo.


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