Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"Coração de cristal"

Abaixo a cronica "Coração de cristal" de Walcyr /carrasco;
Quando minha mãe ficou doente, eu e meus irmãos nos surpreendemos. Dona Angela sempre fora tão saudável! Um amigo me alertou:
- Água nos pulmões pode indicar coisa séria.
O diagnóstico confirmou a gravidade: metástase de um tumor nas glândulas suprarrenais, sem possibilidade de operação. Até então não tivera um único sintoma! Em torno dela se formou uma rede de silêncios. Nunca gostara de falar de doenças de pessoas próximas, que dirá da sua! Eu brincava:
- Se é água nos pulmões, precisa de um encanador, não de um médico para retirar!
Ela ria. Dentro de mim, um nó diante de sua dificuldade para respirar, mas tentava elevar o astral. Aos poucos ela mesma percebeu a gravidade de seu estado, e as brincadeiras sumiram de nossos encontros.
Resolveu permanecer em Santos, onde morava. Após a morte de meu pai, iniciara um namoro com seu Olimpio, um aposentado de sua idade. Ele a acompanhava nas internações, segurava sua mão. O tratamento continuou, paliativo. Intimamente eu rezava para que partisse antes de sofrer demais.
Havia tanto para falar! Muitas vezes, eu e mamãe nos desencontramos, ao longo da vida. Sonhava que eu tivesse uma vida estável, com bom emprego e casa própria. Não entendeu quando me rebelei para seguir meus próprios caminhos. Era uma mulher simples que na infância vivera pobremente, com seus pais, trabalhadores da roça. Parou de estudar menina, no 3º ano do antigo primário, quando deixou a escola para ir colher algodão. Casada, ajudava meu pai, ferroviário, com um pequeno bazar, mais tarde vendeu roupas feitas. Enfim, buscava maneiras de incrementar a renda da família. Seu maior medo era que um dos filhos passasse necessidade. Ao contrário de seus desejos, eu me arriscava de emprego em emprego, buscava outro tipo de vida. Discutimos muitas vezes porque eu não me preocupava com a segurança que ela tanto ambicionava. E me distanciei de minha mãe. Já maduro, não reconstrui essa ponte como gostaria. Ríamos juntos, conversávamos sobre a família, mas já não compartilhávamos a vida.
Agora, diante de seu leito, eu queria dizer que sua vida valera a pena. Seu carinho, seu apoio, a certeza de que estava ali haviam sido fundamentais para eu me tornar o homem que sou. Mas as palavras não saíam. Ia ao hospital e falávamos sobre assuntos triviais. Tantas palavras sufocadas. Eu me despedia, prometia voltar logo. Aguardava o momento certo para dizer:
- Foi muito bom ter você na minha vida, mãe!
Mas esse momento parecia não chegar.
Então, um domingo, após estacionar no hospital, resolvi lhe comprar um presente. Entrei numa loja próxima. Nas prateleiras repletas de objetos indianos e velas decorativas, descobri um pequeno coração de cristal. Não tive dúvidas: era ele que eu queria!
Ofereci o coração:
- Vai atrair boas vibrações! - minha mãe me respondeu com um olhar intenso, emocionado.
Foi a última vez que a vi com vida. Partiu na quarta-feira seguinte, de noite. Desci para Santos. Com meus irmãos, providenciei a despedida. Uma de minhas sobrinhas visitara mamãe no dia anterior. Comentou:
- Ela me mostrou o coração que ganhou de você. Não o largava. E se despediu com ele na mão!
Não encontramos o coração entre suas coisas. Ao olhar sua mão fechada, imaginei que talvez ele ainda estivesse lá, preso em sua palma, bem apertado. E me senti reconfortado. Ela entendera o significado do presente, aceitara as palavras não ditas, deixara seu coração falar. Com o coração de cristal, entregara também o meu. E mamãe partira levando meu amor.

Entre os trabalhos da faculdade do marido, uma cronica intitulado como "Coração de Cristal" li.
O titulo levou-me imediatamente a Letícia, "Coração de Cristal, tão pequeno, frágil, apaixonante coraçãozinho da Lelê, em instantes revivi como sempre nossa história de amor e como a dor e a glória de um parto, ao apagar-se, acendeu-se para sempre dentro de meu próprio coração.
Mas ao ler, revivi momentos, sensações, dores e amores como Mãe, sobre minha relação com minhas meninas, as vezes tão suave, as vezes tão conturbado, no entanto, o mesmo incondicional amor. Cada uma com sua individualidade, sua personalidade, mas a mesma importância, a cronica fala esplendidamente sobre o desejo ambicioso de sua mãe, ao desejar simplesmente o melhor aos seus filhos, assim como na cronica, sempre ambicionei o melhor, o maior, o mais bonito, e enquanto dependia de mim, não poupava sacrifícios, suores, nem lágrimas para tentar proporcionar o melhor, mas quando essa situação passou a deixar de depender apenas de mim, me perdi, ao velas traçar caminhos diferentes, as vezes não tão ambiciosos como os que as desejo. Aceitar que filhos voam  para outras direções, causaram-me medo absoluto, sentimentos desconhecidos, confusos. A elas só quero o melhor, entender que o melhor para elas nem sempre é o melhor que idealizei dói.
Mas hoje, 22/09, no dia em que celebrávamos sua vida, dedico a ela, aquela que assim como eu, a mim, sempre quis o melhor, idealizou-me uma vida plena e feliz, sonhou os mais belos sonhos, certamente,  grande parte deles, frustrados, pois não diferente de todos os filhos, eu também quis seguir meu próprio caminho...... 
É, também como todos os filhos, também sinto aquela sensação de que, se pudesse voltar a trás, muita coisa teria sido diferente, sem duvidas teria e seria uma pessoa melhor,  pela certeza de que os sonhos que ela ambicionava para mim, eram, obviamente, melhor para minha vida. Coisas que só percebemos ao se tornar Mãe!
Hoje, no dia do seu aniversario, celebro sua memória e dedico todo meu amor, Dª Amélia, minha MÃE, para mim, a melhor do mundo, hoje, do céu.

Referente ao trabalho da faculdade, uma  das perguntas que levaram a pensar e refletir nisso tudo:
Qual é o tema que trata a crônica e qual o ponto de vista do autor a respeito do tema? Retire do texto um trecho que justifique a sua resposta?
Resposta:
A crônica trata do sentimentalismo do autor, da tristeza em aceitar a iminente perda da mãe, e o desespero ao perceber tardiamente as dificuldades sempre presentes no relacionamento dos dois e o arrependimento de não as ter superado antes, como no trecho:
"Discutimos muitas vezes porque eu não me preocupava com a segurança que ela tanto ambicionava. E me distanciei de minha mãe. Já maduro, não reconstrui essa ponte como gostaria. Ríamos juntos, conversávamos sobre a família, mas já não compartilhávamos a vida."


Para a minha Mãe, ofereço meu coração de cristal.

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