Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

Pesquisar este blog

Todos os dias ela vive em mim, mas datas invade-me!
Dia 05 ela nasceu, eu me permito sentir todas dores, mas acima de tudo "Gratidão"
Dia 15 ela foi para o céu, e eu sou revolta, questionamentos, mais ainda sou amor!
Dia das mães ela é ainda mais minha!
Dia 25 é natal, dia em que faço meus pedidos, de misericórdia, compreensão e força!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

DOR DA PERDA Para Colin Murray Parkes, período é etapa de transição e pode ser um momento para recriar a própria história Psiquiatra inglês analisa o luto e vê o amor

Um dos maiores especialistas em luto no mundo, o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes, 77, parou na frente de uma escultura em mármore negro, a de que mais gostou em seu passeio pela Pinacoteca do Estado de São Paulo na tarde da última sexta-feira.
"Está quebrada, mas inteira. A impressão é que quebrou, mas continua inteira, continua uma pessoa, uma vida, uma coisa. É reconhecer o valor das duas partes, mesmo quebradas", disse Parkes, que é consultor do St. Christopher's Hospice, em Londres, uma instituição para pacientes fora de possibilidades terapêuticas .
"Figura Quebrada", obra de 1975 do compatriota Henry Moore, materializou a teoria de Parkes sobre a dor da perda, construída durante mais de 50 anos.
Para Parkes, o luto é o preço que se paga pelo amor, por uma vida feliz. É assim que ele impulsiona seus pacientes a não esquecer, mas seguir com a boa lembrança. Para ele, o luto é uma importante transição, pode ser um momento para recriar a própria história, diz.
"O apego é poderoso, e quando o apego é quebrado, você se sente exatamente assim. O que essa escultura capturou é que, ainda assim, é bonito", disse Parkes, que desfrutava do único dia livre de sua passagem na semana passada pela capital paulista para o 3º Congresso Brasileiro de Tanatologia [estudos sobre a morte] e Bioética. O evento que terminou ontem foi promovido pelo Instituto 4 Estações e por centros de estudos sobre a morte e o luto da Pontifícia Universidade Católica e da Universidade de São Paulo. O evento foi tão procurado que começou com lotação esgotada.
Veja a seguir outros trechos da entrevista concedida à Folha.

Folha - Por que o senhor escolheu trabalhar com o luto?
Colin Murray Parkes
 - Muitas coisas diferentes contribuíram para isso. Uma delas foi meu descontentamento com a forma como alguns médicos tratam seus pacientes. Mesmo quando eu era um jovem estudante de medicina, era interessado em psicologia, tinha vontade de estudar os fatores de estresse dos pacientes e ajudá-los nesses momentos decisivos, quando você se depara com as perdas ou fica doente.
Eu vejo a morte e o luto como parte dos eventos que mudam a vida, o que inclui a perda, que sempre traz um elemento de ganho. O nascimento de um bebê pode ser muito traumático, dolorido, pode ser uma perda também, em alguns pontos de vista, e é ainda um ganho tremendo. A parte recompensadora de trabalhar com pessoas que estão vivendo o luto é vê-las crescer. Eu acho que uma das coisas que o luto ensina é que as pessoas que amamos nunca perdemos. Elas são parte da nossas vidas para sempre.
Quando alguém diz "ele vive em minha memória", isso é verdade. O problema é que, no primeiro momento em que se perde alguém, sente-se que todas as coisas boas que vieram com essa pessoa se perderam também. Só quando a pessoa pára de tentar recuperar é que percebe que nunca perdeu.

Folha - Viver diariamente outros lutos é doloroso para o senhor ?
Parkes
 - Claro que é. Mas a dor do luto é igual à do nascimento, como disse. É doloroso, mas algo bom pode vir com isso. Você se sente fraco, carente, mutilado, acha que tudo o que é importante foi embora. Mas a mesma pessoa, talvez dois, três, quatro anos depois vai dizer coisas como "estou surpreso sobre o quanto sou forte". Eles percebem que sobreviveram, que começaram a valorizar a si mesmos e à pessoa que morreu de uma nova maneira, que é mais madura. Não estou sendo Pollyana, eu não espero que minha mulher morra. Mas não importa se eu vou morrer antes dela ou ela antes de mim. Quando isso acontecer, nós sabemos que poderemos continuar um sem o outro.

Folha - Alcançar isso independe de uma crença religiosa?
Parkes
 - Eu diria que isso é parte de um lado espiritual. Porque espiritualidade é achar um sentido na vida, qualquer que seja a linguagem que você utiliza para explicar esse significado. Muitas pessoas gostam da linguagem de Deus. Quando trabalhamos com pessoas que vivem o luto estamos fazendo o que os padres fazem, tentando ajudá-las a achar um novo significado.

Folha - O senhor afirma em seu livro que o luto é o preço que pagamos pelo amor, por termos aceitado compromissos em nossas vidas. O luto é inerente a uma vida feliz?
Parkes
 - Não há dúvida de que o luto é a experiência psicológica mais dolorosa que qualquer pessoa irá viver, e, quanto maior é o amor, maior é essa dor. Não há dúvida, o luto é um preço que temos de pagar. Algumas pessoas acham seu luto tão doloroso que ficam com medo de amar novamente. Mas o preço vale a pena.

Folha - É possível educar para o luto?
Parkes
 - Isso certamente ajuda. As perdas são inevitáveis na vida. Perdas que podem ser de uma boneca ou de uma pessoa. E os pais devem aproveitar essas oportunidades para ajudar as crianças a aceitar que a perda é parte da vida.
Eu estava dirigindo com minhas filhas no carro uma vez -elas tinham cinco, três e dois anos de idade- e uma delas viu um gato morto. Eu parei e disse: vocês querem ver? Começou um debate [risos]. Elas decidiram que sim e eu dei permissão. Ainda bem que o gato não estava em um estado tão ruim [risos]. Mas conversamos sobre o que aconteceria com ele. Eu disse que um dia poderia virar adubo, que faria mais flores bonitas crescerem em um jardim. Alguns dias depois a mais nova perguntou: "Pai, o que vai acontecer com você quando você morrer?" Eu perguntei o que ela achava. "Adubo!", ela respondeu.

Folha - O senhor fala de outros lutos, que existem mesmo quando não há a morte.
Parkes
 - Um exemplo é se sua mulher ou seu marido tem o mal de Alzheimer, uma demência. Ela se torna uma pessoa diferente, infantil, insensível. Você lamenta pela pessoa que perdeu. Algumas pessoas conseguem superar isso, lembrar como a pessoa era.
É assim também com a mãe, que sempre espera uma criança perfeita e tem um bebê com uma deficiência física. Algumas irão rejeitar essa criança.
Se você puder ajudar essas pessoas em seu luto, elas poderão chegar à conclusão de que sim, é muito triste, mas que podem amar de uma maneira diferente e até mais forte. Sim, e pode haver luto mesmo se você perder o que nunca teve. É o caso de alguém que sempre quis se casar e o noivo abandonou antes da cerimônia.

Folha - Como as políticas de saúde devem lidar com a morte? No Brasil a criação de regras para a manutenção de terapia intensiva gerou acusações de que o governo queria um holocausto. A mesma comoção que há sobre a eutanásia.
Parkes
 - É uma decisão muito difícil. Há muitas pessoas envolvidas. Não é só a questão sobre se o sofrimento justifica uma autorização para que o paciente morra. Mas como irá afetar pais, irmãos. Sim, sabemos que há as questões econômicas. Se bloqueio este leito, outras cinco pessoas irão morrer. Não há resposta simples. Essa questão não tem que ser decidida na base do "não matarás", ou de preconceitos, mas em um contexto em que todas as variáveis têm que ser levadas em conta, incluindo familiares e políticas de saúde.

sábado, 14 de abril de 2018

Efeito dominó

Engana-se quem pensa que perdi "só uma filha".  É impressionante o tamanho do estrago, do efeito dominó que se deu em TODAS as áreas da minha vida. Impossível reconstruir tudo. Perdi tanta coisa junto! Quem perde um filho perde a si também e essa dor psíquica de reconstruir-se é imensa. São tantas perdas, tantos lutos juntos! "Retomar" a vida ou voltar ao que era antes de tudo inexiste. A energia que essa reconstrução demanda é tão insuportavelmente grande, intensa, imensa, que, ainda hoje, sinto o baque de tudo. Amigos, profissão, família. Nada mais é igual. Ainda estou a catar os cacos no chão. A tentar entender que nunca mais serei a mesma de 2011. Nunca mais. Entender eu até entendo, mas às vezes esperneio para ver se o caminho se abranda e se compadece. Não existe superação. Existe sobrevivência à morte de um filho. Os dias seguem e um dia a maré acalma. Vez ou outra uma tempestade vem, mas o rumo mudou de vez. Não se navega mais para onde se desejava ir. Não foi só uma perda: foram milhares. E cuidar de cada uma delas leva tempo, energia emocional e dói. Muito.

Sobre saudades imensas

E nos dias de saudade imensa, tão profunda que não caberão  legendas alheias, calmamente aguardarei a chegada da noite. Despida da roupa que uso lá fora, deitarei ouvindo uma melodia de paz, em comunhão com o universo. Conversarei com você, relembrarei as cenas da nossa vida, sentirei minha alma sendo tocada pelas suas mãos, meus ouvidos pela sua voz, meu coração pelo amor que nos une, ultrapassando qualquer distância. Nesse silêncio cheio de palavras você me contará sobre o sentido da eternidade, minha saudade, como criança embalada por essa cantiga, adormecerá.

Principio da vida / morte de um filho

Quando ocorre a morte de um filho, os pais sentem um choque profundo e forte com essa dor, pois eles sofrem e choram a perda de – um pedaço de si mesmo, que nunca mais voltará, um pedaço da alma que se parte em centenas de pedaços e nem o tempo, com sua sabedoria, será capaz de juntar e colar esses estilhaços.Os pais acreditam que segundo a lei da natureza e divina deveriam morrer antes de seus filhos. Mas isso, infelizmente, não é um princípio da vida. O escritor José Saramago resumiu essa dor: “Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado”.Nesse momento muitos pais clamam a Deus que troquem uma vida pela outra. São manifestações de corações despedaçados por um sentimento insuportável. Cada pai e mãe sentirá a dor da perda do jeito que as condições lhe permitirem. Dor é dor e nunca conseguiremos entender tudo que percorre na mente e no peito dos pais que vivenciam a perda dos seus filhos.A evolução da vida continua e os pais sabem que é preciso aos poucos recompor o que está esfacelado, da maneira que puderem e mesmo com as feridas ainda abertas, para superar o difícil caminho do luto. 

Sobre saudade e paz

Meu amor, sua ausência traz essa sensação que podia ter tido mais, muito mais...um gosto de lugares interrompidos, como aquelas flores que estão crescendo e, num dia qualquer, chega uma tempestade e desconsidera a vida que ainda estava por ali.
Amanheço devagar, longe do mundo, nesse universo particular, inundado de amor e saudade. Transbordam perguntas sem respostas. Sinto falta de você e andando por esses lugares, de vez em quando, tento explicar o que não se explica. Nessas horas converso com a vida, silenciosamente te falo das tristezas que me espiam...
Me aquieto, corpo e alma, um jeito de dizer que sigo acreditando na sua paz. Meu amor, me ilumina, me conta da vida que segue, do dia que amanhece, dos passos que andam, das mãos que abraçam, meu amor me dá clareza dessa honra que é viver, olhar em volta e saber que sempre haverá amor ligando quem a gente ama, aqui ou onde meus olhos não alcança...

(Teresa Gouvea)

Normal

Me sentir normal é:
É escolher vazinhos de flores em miniatura para levar ao cemitério no natal.
É recusar convites para festas, ou ir por obrigação, e mesmo sorrindo para as pessoas só eu sei como realmente me sinto por dentro.
É tomar conhecimento de morte de uma criança e não sentir espanto, sentir dor, mas sobre tudo pensar que faz parte, "com minha filha também foi assim".
É sentir dor em todos os lugares onde as pessoas se reúnem, o pensamento insistentemente é, se ela estivesse aqui estaria fazendo isso, aquilo, agindo dessa maneira, ou daquela ou apenas dormindo em meus braços ou nos braços do Papai. Quando a noite cai os pensamentos ficam mais evidentes e os porquês teimam em atormentar meu sono.
O silencio também aceleram meus pensamentos, faz crescer minha angustia, aumenta a raiva pela vida que fora tirada de mim.
Falar de minha filha é manter lucida minha mente, é aliviar meu coração, e desabafar minha alma cansada e sobrecarregada.
É revelar fotos, é colocar em quadros, é escrever em blog, é participar de grupos de apoio, é gritar ao mundo meu amor.
É sofrer mais nos dias 05 e nos dia 15 (datas do nasc. e partida)
É se frustar com antigos amigos que não são capazes de entender minha dor, é virar melhor amiga de infância de mães que também perderam seus filhos, que sentem dor, saudades e amor como eu.
É realmente me sentir cansada para a viver!!!
E mesmo cansada, insisto em viver, mesmo que esse viver seja de passado, de lembranças vividas e não vividas, de sonhos, de esperança, de saudades e de amor.