Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

domingo, 3 de dezembro de 2017

Definições sobre a morte de um filho

“Há palavras como viúvo ou viúva que designam aquele ou aquela que sobrevive ao seu cônjuge; e há palavras como órfão para nomear a perda precoce de um dos genitores. Mas para quem sobreviveu a um filho, não existe denominação alguma”. Em todas as pessoas que vivenciaram a perda de um filho - não importa a idade dele ou em que condições tenha ocorrido - o fato se caracteriza pela complexidade e grande sofrimento causado nos pais sobreviventes. Este tipo de perda é considerado avassalador, origem da desunião e até da destruição do vínculo matrimonial, inclusive familiar. Muitos especialistas têm discorrido sobre a perda, do ponto de vista psicológico; quanto às suas implicações, advindas da morte de um filho, estão longe de ser suficientemente tratadas. Imagino que isso se deva à angústia resultante de uma abordagem tão difícil, pois é de se esperar que os filhos sobrevivam naturalmente aos pais; no entanto, raramente se considera a possibilidade de acontecer o contrário. A morte de um filho produz uma abrupta ruptura na realidade das pessoas e daquilo que “deveria ser”, tratando-se da “continuidade geracional”. Quando ocorre a morte de um filho, a vida é de súbito destroçada, porque não “deveria ser assim”. Não se pode aceitar ter sido pai de um filho e de repente deixar de ser pai desse filho. O progenitor sobrevivente se dá conta de que o filho morreu mesmo, pois já não está mais presente, mas na realidade dói tanto, e custa tal esforço aceitar esta realidade, que ele passa a resistir como pode, acreditando, por mais um lapso de tempo, que seu filho não morreu ainda, e passando a valer-se da negação, a fim de sentir que o filho continua com vida. Geralmente, ao cabo de muita luta interior, chega-se a admitir o fato, embora, durante o processo, a existência do filho se mantenha mentalmente presente para o pai (Nasio, 2007). A meu ver, em casos como este, a existência do filho fica inscrita para sempre na mente paterna ou materna, pois se há de convir que um filho não é uma pessoa a quem se conheça de imediato, como ao restante das outras: a um filho se reserva um espaço todo especial na mente e no coração, desde que os pais planejam a sua concepção e, a partir dela, toda a sua existência. Muitos genitores, ao se depararem com a morte de um filho, relatam que em várias ocasiões tinham pensado: “eu planejava como deveria ser o batismo de minha filha, chegava mesmo a imaginar cada uma das festas de aniversário que eu lhe faria, mas nunca fui capaz de conceber como deveria ser seu funeral”. Isto porque basicamente nós, seres humanos, enquanto vivemos deixamos a morte de fora. Para nós nem toda morte nos diz respeito, só se torna real quando acontece conosco, em nossas vidas, e o que mais assusta é que ela aparece sem pedir licença, irrompendo na vida da gente; mas a morte, que não queremos admitir, já estava presente e nos acompanha continuamente. Há muita nostalgia nisso tudo, há uma mistura de sofrimento, amor e proveito. Sofre-se a ausência do que se foi, e se consola oferecendo a dor causada pela sua ausência. Continuar sofrendo é uma tentativa de manter vivo esse filho. O impacto provocado, nas famílias, pela morte de um filho, chega a conseqüências em que há destruição de vínculos do casal, da família, ou, se os cônjuges permanecem juntos, os laços que os unem é de tristeza e saudade do filho. Há bem poucos casos em que uma perda do gênero possa ser superada, necessitando para evitar isso de um trabalho sólido e profundo por parte do casal. Na verdade, um filho é o resultado de uma união, é um símbolo da conjunção de duas pessoas, a prova viva de que um casal se mantém intimamente ligado entre si. Por isso acredito que quando este símbolo deixa de ser vivo, vem à tona um vazio: não só alguma coisa morre dentro de cada um, como também essa morte marca o laço que existe entre os dois. Parece-me que, ainda que eu escrevesse um tratado completo sobre a experiência de se perder um filho, não seria suficiente para chegar a compreender o que vivem esses pais; talvez eu possa me aproximar da sua experiência, entender o que pensam e como os afeta; mas quando falam de sua solidão e de seu vazio, continua incompreensível para mim, porque solidão e vazio são palavras que cobrem precisamente essa falta. E essa ausência continuará a se fazer presente. Na realidade, serve apenas para vislumbrarmos a essência humana e nos tornarmos conscientes de que, muitas vezes, se não estamos dispostos a encarar a morte, é porque o amor causa dor, e só quando se sofre é que se sente medo de perder a pessoa amada.

Celio Murilo

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Saudade cheia de amor

"É uma saudade tão minha. Tão nossa. Tão recheada de histórias. É uma saudade tão grande, tão presente, tão constante. É amor que se eternizou através de carinho, de sorriso, de passeios, de histórias na hora de dormir. É amor que ficou diante do tchau que eu não queria dar, diante do mundo de sonhos que imaginei. É uma saudade cheia de vida, de bons momentos, de carinho sincero, de felicidade que impulsiona. É uma saudade de criança que brilha nos olhos e aperta o coração. É saudade que não tem fim, que não dimensiona, que não termina. É a minha saudade cheia de cor. Cheia de A M O R!!!!"

_____ Marcely Pieroni Gastaldi

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Sobre despedidas e encontros...

Você vai para onde meus olhos não alcançam,
brigo muito até entender que preciso ficar,
amanhecer muitas vezes,
faz parte da minha travessia não te ver,
dormir com meus próprios abraços,
ficar inteira onde estou,
abrir a janela do meu quarto, respirar,
comungar com a vida que tenho,
encontrar lugares suficientes dentro de mim
onde caiba tudo o que fomos, 
nossos sonhos adormecidos e acontecidos,
preciso de você pra que eu possa seguir,
preciso ficar pra te deixar ir...

(Teresa Gouveia)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Pedidos simples de pais enlutados:

1. Eu desejo que você não tenha medo de falar o nome do(a) meu filho(a) perto de mim. Meu filho viveu e foi importante e eu preciso ouvir o nome dele / dela.
2. Se eu chorar ou me emocionar, podemos conversar sobre isso.. meu filho, eu queria que você soubesse que é não é porque você tenha me magoado. O fato de que meu filho partiu causou minhas lágrimas. Você tem me permitido chorar e eu lhe agradeço. Chorar e emoções inesperadas fazem parte do processo da minha dor.
3. Gostaria que você não ignorasse ou agisse como se meu filho nunca existiu, removendo de sua casa seus quadros, obras de arte ou outras lembranças desta pessoa muito especial que viveu e fez uma contribuição para todas as nossas vidas.
4. Vou ter altos e baixos emocionais, altos e baixos. Eu não queria que você pensasse que ser eu tiver um bom dia meu luto está acabado, ou que se eu tiver um dia ruim eu preciso de aconselhamento psiquiátrico. Meu humor se tornou instável e imprevisível, da alegria ao desespero, e é tão imprevisível para mim, como para você. Isso faz parte da minha nova vida "normal".
5. Eu queria que você soubesse que a morte de uma criança é diferente de outras perdas e deve ser visto em separado. É a maior tragédia na vida de uma pessoa. Eu queria que você não a comparasse com a sua perda de um pai, um amigo, um cônjuge ou um animal de estimação.
6. Ser um pai ou mãe em luto em não é contagioso, então eu queria que você não fugisse de mim. Eu preciso de você e você precisa de mim.
7. Eu queria que você soubesse que todas as reações "loucas" de luto que eu tenho são, na verdade, muito normais. Depressão, raiva, frustração, desesperança e questionamento de valores e crenças são esperadas após a morte de uma criança.
8. Eu queria que você não esperasse que minha dor já estivesse acabada em seis meses. Por favor, não ache que exista um "período de tempo" e eu me torno um pai/mãe “ex-enlutado(a)", mas eu estarei doente para sempre me recuperando dessa tragédia em minha vida. Por favor, não me diga como eu deveria "lidar" ou que "é hora de seguir em frente" ou "um dia haverá a superação do meu sofrimento". A palavra “superação "é um termo de mídia, moda, que é absolutamente completo sem sentido para nós.
9. Eu queria que você entendesse as reações físicas ao sofrimento. Eu posso ganhar peso ou perder peso, dormir o tempo todo ou não em todos, desenvolver uma série de doenças, ser propenso a acidentes ou esquecido (perder parte da memória), todos os quais podem estar relacionados com a minha dor. Eu posso tornar-me isolado e retirado por períodos de tempo. Eu posso até mesmo não ser capaz de falar nas chamadas de telefone, celular, ou dar retorno a ligações, mensagens...e isso tem a ver com minha dor, não com você.
10. Aniversário de nosso(a) filho(a), o aniversário de morte (dolorosa palavra) e feriados são tempos terríveis para nós. Eu gostaria que você nos dissesse que está pensando em nossos filhos nesses dias. E se eu ficar quieto e retraído, só saiba que estamos pensando em nosso filho e não tente forçar-nos a ser alegres. Se nada mais, eu queria que você chamasse de vez em quando e dizer "oi, eu estava pensando em você" ou apenas uma nota amigável ou palavra "só queria que você soubesse que eu estava pensando em você hoje e espero que as coisas estejam OK. "
11. É normal e bom a maioria de nós re-examinar a nossa fé, valores e crenças, depois de perder um filho. Vamos questionar as coisas que foram ensinadas todas as nossas vidas e, esperamos, chegar a algum novo entendimento com Deus. Eu queria que você me deixasse à vontade com a minha religião, idéias, sem me fazer sentir culpada.
12. Eu quero que você entenda que o luto muda as pessoas. Eu não sou a mesma pessoa que era antes que meu filho(a) morreu e eu nunca mais vou ser essa pessoa novamente. Se você continuar esperando e me incentivando a "voltar para o meu velho eu", você vai se decepcionar. Eu sou uma nova criatura, não por escolha, mas pelas circunstâncias, com novos pensamentos, aspirações, prioridades, valores e crenças. Por favor, tente me conhecer de novo ... talvez você ainda goste de mim.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Sobre o amor que vira luz

Meu amor, você parte, Abro espaços para que você ande na alma, conte sobre meus dias difíceis, abraços curtos, adeuses repentinos, vozes que aquietam, Aprendo na dor o sentido do amor, sobre o colo que não espera o amanhã, a vida interrompida enquanto almoçamos, o celular emudecido no meio da noite, Meu amor, você vira luz, me guia, clareia o sentido de amar, hoje, agora, sem esperas...

(Teresa Gouvea)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Respira saudade

Ela reverte a lei da vida,
Quando esse filho parte, o retorna, não apenas em seu ventre, mas em todo o seu corpo...
Respira a saudade, respira a história que tiveram, incorporado, ele segue com ela.
Segue nos intervalos dos seus dias, nas conversas íntimas com ele, segue quando expõe sua dor.
Segue quando revira fotografias, músicas, filmes, livros, amigos, memórias, qualquer lugar que o lembre...
Segue quando tece essa colcha repleta de retalhos, tão coloridos, tão lindos, pedaços de sua passagem, que vão e voltam, deixando seus dias mais quentes...
Como mãe ela sabe da impossibilidade da morte desse filho, ele jamais deixará de existir...
Sendo mãe, ela a devolve a vida, ele passa a viver dentro dela.

(Trecho do livro "Dirge Of The Lion" obra de minha linda e querida Amanda Tinoco, em homenagem ao filho amado e poeta Gabriel Leão)