Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

Amigos

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Preparando-me para a guerra do dia 15!

Assim que sinto com o aproximar do  dia  que inevitavelmente terei que enfrentar. O aniversario da partida! Ahh se eu pudesse riscar esse dia do meu calendário, tomar uma tarja preta poderosa e amnésica, dormir e acordar dias após sem dor e sem memoria, ah se eu pudesse fugir para um lugar onde esse calendário não me alcançaria... Ah se... Ah....
Mais não posso, assim como não pude impedir o sol de nascer e se por aquele dia.... Triste dia, maldito dia!
Minha consciência procura caminhos para me tranquilizar, tenta me convencer que, não ha o que fazer para mudar o que foi consumado, que algumas situações agente tem que aceitar mesmo sem entender, mas nem mesmo essa teoria é capaz de convencer-me de coisa alguma. Quase 5 anos se passou e absolutamente nada mudou dentro de mim, esta tudo aqui, a dor, os porquês, a revolta, a tristeza absoluta, a saudade que queima, apenas meu amor mudou, cresceu e isso muda o tempo todo, cresce a cada segundo. 
A psicologa querida que tratou de mim no começo dizia, o tempo ira se encarregar de colocar as coisas no lugar, seu desespero é porque vê tudo o que aconteceu como um confuso e barulhento Trailers, e o correto é lembrarmos das coisas em nossa memoria como fotografias. Sim, queria ter a oportunidade de dizer a ela que isso funcionou, nisso o tempo me ajudou, consigo ver como fotografias, não sempre, na maioria das vezes vejo como um filme quase que silencioso, e isso por si ja é um grande alivio. Independente de como minha memoria relembra aqueles momentos, ela é precisa e não me deixa esquecer de nenhum minimo detalhe, esta tudo arquivado aqui, e datas faz com que eu veja relembrando cada momento desde a sua concepção, até nossos últimos momentos, nossa despedida, quanta dor! e ao relembrar, chego a escutar a frase que mais as pessoas me diziam naquele fatídico dia:
O tempo ira te ajudar! ou o tempo cura!
Faltando 8 dias para completar 5 anos, a pergunta que não quer calar?
Quanto tempo?
5 anos? não foi o suficiente,
Então eu quero saber,
10? 15? 30? 50?
Alguém pode me responder?
Sempre tive a certeza de que jamais esqueceria minha filha, mas cheguei sim acreditar que um dia deixaria de sofrer, para sentir apenas aquela agradável saudade, assim como sinto dos queridos que fizeram parte da minha vida e ja se foram. Nesse caso, eu desacredito!

Minha filha adorada, o sofrimento por sua partida, a saudade descomunal, e meu absoluto amor faz com que eu seja, ainda que sofrida, grata por ter gerado, embalado, cheirado, beijado Vc!Sou e serei para sempre grata, eu tive você por 6 meses em meus braços, senti a plenitude, 5 anos, ou uma vida inteira de sofrimento é nada diante da grandeza de ter Você! Aquele brilho no olhar, aquele sorriso iluminado, você me trouxe mais... Você me trouxe muito mais!
Choro sua partida durante esses dias, e perdoa-me minha fraqueza, nesses dias revolto-me, mas os dias maus mas uma vez ira passar, e eu celebrarei sua vinda por durante toda a minha existência!
Sua vinda, sua vidinha, nossos poucos e intensos momentos valeram muito mais do que cada lagrima de dor e de saudades, meu amor é maior, nosso elo, nosso vinculo imaculado, perpetuado,  inquebrável, fiel e infinito, vale muito mais.
Minha pequena! minha alegria plena, meu grande amor! 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"Coração de cristal"

Abaixo a cronica "Coração de cristal" de Walcyr /carrasco;
Quando minha mãe ficou doente, eu e meus irmãos nos surpreendemos. Dona Angela sempre fora tão saudável! Um amigo me alertou:
- Água nos pulmões pode indicar coisa séria.
O diagnóstico confirmou a gravidade: metástase de um tumor nas glândulas suprarrenais, sem possibilidade de operação. Até então não tivera um único sintoma! Em torno dela se formou uma rede de silêncios. Nunca gostara de falar de doenças de pessoas próximas, que dirá da sua! Eu brincava:
- Se é água nos pulmões, precisa de um encanador, não de um médico para retirar!
Ela ria. Dentro de mim, um nó diante de sua dificuldade para respirar, mas tentava elevar o astral. Aos poucos ela mesma percebeu a gravidade de seu estado, e as brincadeiras sumiram de nossos encontros.
Resolveu permanecer em Santos, onde morava. Após a morte de meu pai, iniciara um namoro com seu Olimpio, um aposentado de sua idade. Ele a acompanhava nas internações, segurava sua mão. O tratamento continuou, paliativo. Intimamente eu rezava para que partisse antes de sofrer demais.
Havia tanto para falar! Muitas vezes, eu e mamãe nos desencontramos, ao longo da vida. Sonhava que eu tivesse uma vida estável, com bom emprego e casa própria. Não entendeu quando me rebelei para seguir meus próprios caminhos. Era uma mulher simples que na infância vivera pobremente, com seus pais, trabalhadores da roça. Parou de estudar menina, no 3º ano do antigo primário, quando deixou a escola para ir colher algodão. Casada, ajudava meu pai, ferroviário, com um pequeno bazar, mais tarde vendeu roupas feitas. Enfim, buscava maneiras de incrementar a renda da família. Seu maior medo era que um dos filhos passasse necessidade. Ao contrário de seus desejos, eu me arriscava de emprego em emprego, buscava outro tipo de vida. Discutimos muitas vezes porque eu não me preocupava com a segurança que ela tanto ambicionava. E me distanciei de minha mãe. Já maduro, não reconstrui essa ponte como gostaria. Ríamos juntos, conversávamos sobre a família, mas já não compartilhávamos a vida.
Agora, diante de seu leito, eu queria dizer que sua vida valera a pena. Seu carinho, seu apoio, a certeza de que estava ali haviam sido fundamentais para eu me tornar o homem que sou. Mas as palavras não saíam. Ia ao hospital e falávamos sobre assuntos triviais. Tantas palavras sufocadas. Eu me despedia, prometia voltar logo. Aguardava o momento certo para dizer:
- Foi muito bom ter você na minha vida, mãe!
Mas esse momento parecia não chegar.
Então, um domingo, após estacionar no hospital, resolvi lhe comprar um presente. Entrei numa loja próxima. Nas prateleiras repletas de objetos indianos e velas decorativas, descobri um pequeno coração de cristal. Não tive dúvidas: era ele que eu queria!
Ofereci o coração:
- Vai atrair boas vibrações! - minha mãe me respondeu com um olhar intenso, emocionado.
Foi a última vez que a vi com vida. Partiu na quarta-feira seguinte, de noite. Desci para Santos. Com meus irmãos, providenciei a despedida. Uma de minhas sobrinhas visitara mamãe no dia anterior. Comentou:
- Ela me mostrou o coração que ganhou de você. Não o largava. E se despediu com ele na mão!
Não encontramos o coração entre suas coisas. Ao olhar sua mão fechada, imaginei que talvez ele ainda estivesse lá, preso em sua palma, bem apertado. E me senti reconfortado. Ela entendera o significado do presente, aceitara as palavras não ditas, deixara seu coração falar. Com o coração de cristal, entregara também o meu. E mamãe partira levando meu amor.

Entre os trabalhos da faculdade do marido, uma cronica intitulado como "Coração de Cristal" li.
O titulo levou-me imediatamente a Letícia, "Coração de Cristal, tão pequeno, frágil, apaixonante coraçãozinho da Lelê, em instantes revivi como sempre nossa história de amor e como a dor e a glória de um parto, ao apagar-se, acendeu-se para sempre dentro de meu próprio coração.
Mas ao ler, revivi momentos, sensações, dores e amores como Mãe, sobre minha relação com minhas meninas, as vezes tão suave, as vezes tão conturbado, no entanto, o mesmo incondicional amor. Cada uma com sua individualidade, sua personalidade, mas a mesma importância, a cronica fala esplendidamente sobre o desejo ambicioso de sua mãe, ao desejar simplesmente o melhor aos seus filhos, assim como na cronica, sempre ambicionei o melhor, o maior, o mais bonito, e enquanto dependia de mim, não poupava sacrifícios, suores, nem lágrimas para tentar proporcionar o melhor, mas quando essa situação passou a deixar de depender apenas de mim, me perdi, ao velas traçar caminhos diferentes, as vezes não tão ambiciosos como os que as desejo. Aceitar que filhos voam  para outras direções, causaram-me medo absoluto, sentimentos desconhecidos, confusos. A elas só quero o melhor, entender que o melhor para elas nem sempre é o melhor que idealizei dói.
Mas hoje, 22/09, no dia em que celebrávamos sua vida, dedico a ela, aquela que assim como eu, a mim, sempre quis o melhor, idealizou-me uma vida plena e feliz, sonhou os mais belos sonhos, certamente,  grande parte deles, frustrados, pois não diferente de todos os filhos, eu também quis seguir meu próprio caminho...... 
É, também como todos os filhos, também sinto aquela sensação de que, se pudesse voltar a trás, muita coisa teria sido diferente, sem duvidas teria e seria uma pessoa melhor,  pela certeza de que os sonhos que ela ambicionava para mim, eram, obviamente, melhor para minha vida. Coisas que só percebemos ao se tornar Mãe!
Hoje, no dia do seu aniversario, celebro sua memória e dedico todo meu amor, Dª Amélia, minha MÃE, para mim, a melhor do mundo, hoje, do céu.

Referente ao trabalho da faculdade, uma  das perguntas que levaram a pensar e refletir nisso tudo:
Qual é o tema que trata a crônica e qual o ponto de vista do autor a respeito do tema? Retire do texto um trecho que justifique a sua resposta?
Resposta:
A crônica trata do sentimentalismo do autor, da tristeza em aceitar a iminente perda da mãe, e o desespero ao perceber tardiamente as dificuldades sempre presentes no relacionamento dos dois e o arrependimento de não as ter superado antes, como no trecho:
"Discutimos muitas vezes porque eu não me preocupava com a segurança que ela tanto ambicionava. E me distanciei de minha mãe. Já maduro, não reconstrui essa ponte como gostaria. Ríamos juntos, conversávamos sobre a família, mas já não compartilhávamos a vida."


Para a minha Mãe, ofereço meu coração de cristal.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Nunca algo que li me chorar tão sincera e verdadeiramente.... Recomendo!

“Para quando eu me for”, um texto para quem não tem medo de se emocionar;

Morrer é uma surpresa. Sempre. Nunca se espera. Nem mesmo o paciente terminal acha que vai morrer hoje ou amanhã. Na semana que vem talvez, mas apenas se a semana que vem continuar sendo na semana que vem.
Nunca se está pronto. Nunca é a hora. Nunca vamos ter feito tudo o que queríamos ter feito. O fim da vida sempre vem de surpresa, fazendo as viúvas chorarem e entediando as crianças que ainda não entendem o que é um velório (Graças a Deus).
Com meu pai não foi diferente. Na verdade, foi mais inesperado. Meu pai se foi com 27 anos, a idade que leva muitos músicos famosos. Jovem. Moço demais. Meu pai não era músico nem famoso, o câncer parece não ter preferência. Ele se foi quando eu ainda era novo, descobri o que era um velório justamente com ele. Eu tinha 8 anos e meio, o suficiente pra sentir saudade pelo resto da vida. Se ele tivesse morrido antes, não haveriam lembranças. Nem dor. Mas também não haveria um pai na minha história. E eu tive um pai.
Tive um pai que era duro e divertido. Que me colocava de castigo com uma piadinha pra não me magoar. Que me dava um beijo na testa antes de dormir. Hábito esse que eu levei para os meus filhos. Que me obrigou a amar o mesmo time que ele e que explicava as coisas de um jeito melhor que a minha mãe. Sabe? Um pai desses que faz falta.
Ele nunca me disse que ia morrer, nem quando já estava deitado cheio de tubos. Meu pai fazia planos para o ano que vem mesmo sabendo que não veria o próximo mês. No ano que vem iríamos pescar, viajar, visitar lugares que nenhum de nós conhecia. O ano que vem seria incrível. Eu vivi esse sonho com ele.
Acho, tenho certeza na verdade, que ele pensava que isso daria sorte. Supersticioso. Pensar no futuro era o jeito dele se manter otimista. O desgraçado me fez rir até o final. Ele sabia. Ele não me contou. Ele não me viu chorar a sua perda.
E de repente o ano que vem acabou antes de começar.
Minha mãe me pegou na escola e fomos ao hospital. O médico deu a notícia com toda a sensibilidade que um médico deixa de ter com os anos. Minha mãe chorou. Ela também tinha um pingo de esperança. Como disse antes, todo mundo tem. Eu senti o golpe. Como assim? Não era só uma doença normal dessas que a gente toma injeção? Pai, como eu te odiei. Você mentiu pra mim. Não fiquei triste, pai, fiquei com raiva. Me senti traído. Gritei de raiva no hospital até perceber que meu pai não estava lá pra me colocar de castigo. Chorei.
Mas aí meu pai foi meu pai de novo. Trazendo uma caixa de sapato debaixo dos braços, uma enfermeira veio me consolar. Dentro, dezenas de envelopes lacrados com frases escritas onde deveriam ficar os nomes dos destinatários. Entre as lágrimas e os soluços não consegui entender direito o que estava acontecendo. E então a mesma enfermeira me entregou uma carta. A única fora da caixa.
“Seu pai me pediu pra entregar essa pessoalmente e te dizer pra abrir. Ele passou a semana inteira escrevendo tudo isso e disse que era pra você. Seja forte.” Disse a enfermeira com um abraço.
PARA QUANDO EU ME FOR dizia o envelope que ela me entregou. Abri.

Filho,
Se você está lendo eu morri. Desculpa, eu sabia.
Não queria te dizer que ia acontecer, não queria te ver chorar. Parece que consegui. Acho que um homem prestes a morrer tem o direito de ser um pouco egoísta.
Bom, como eu ainda tenho muito pra te ensinar, afinal você não sabe de nada, deixei essas cartas. Você só pode abrir quando o momento certo chegar, o momento que eu escrevi no envelope. Esse é o nosso combinado, ok?
Eu te amo. Cuida da sua mãe, você é o homem da casa agora.
Beijo, pai.
PS: Não deixei cartas para sua mãe, ela já ficou com o carro.
E com aqueles garranchos, afinal naquela época não era tão fácil imprimir como é hoje em dia, ele me fez parar de chorar. Aquela letra porca que uma criança de 8 anos mal entendia (eu, no caso) me acalmou. Me arrancou um riso do rosto. Esse era o jeito do meu pai de fazer as coisas. Que nem o castigo com uma piadinha para aliviar.
Aquela caixa se tornou a coisa mais importante do mundo. Proibi minha mãe de abrir, de ler. Mas elas eram minhas, só pra mim. Sabia decorado todos os momentos da vida em que eu poderia abrir uma carta e ler o que meu pai tinha deixado. Só que esses momentos demoraram muito pra chegar. E eu esqueci.
Sete anos e uma mudança depois eu não tinha ideia de onde a caixa tinha ido parar. Eu não lembrava dela. Algo que você não lembra não faz falta. Se você perdeu algo da sua memória, você não perdeu. Simplesmente não existe. Como dinheiro que depois você acha no bolso da bermuda.
E então aconteceu. Uma mistura de adolescência com o novo namorado da minha mãe desencadeou o que meu pai sabia que um dia aconteceria. Minha mãe teve vários namorados, sempre entendi. Ela nunca casou de novo. Não sei ao certo o motivo, mas gosto de acreditar que o amor da vida dela tinha sido meu pai. Mas esse namorado era ridículo. Eu sentia que ela se rebaixava pra ele. Que ele fazia pouco da mulher que ela era. Que uma mulher como ela merecia algo melhor do que um cara que ela tinha conhecido no forró.
Me lembro até hoje do tapa que veio acompanhado da palavra “forró”. Eu mereci, admito. Os anos me mostraram isso. Na hora, enquanto a pele da minha bochecha ardia, lembrei da minha caixa e das minhas cartas. De uma carta em específico que dizia PARA QUANDO VOCÊ TIVER A PIOR BRIGA DO MUNDO COM A SUA MÃE.
Corri para o quarto e revirei minhas coisas o suficiente para levar outro tapa na cara da minha mãe. Encontrei a caixa dentro de uma mala de viagem na parte de cima do armário. O limbo. Procurei entre os envelopes. Passei por PARA QUANDO VOCÊ DER O PRIMEIRO BEIJO e percebi que havia pulado essa, me odiei um pouco e decidi que a leria logo depois, e por PARA QUANDO VOCÊ PERDER A VIRGINDADE, uma que eu esperava abrir logo, logo. Achei o que procurava e abri.
Pede desculpa.
Eu não sei o motivo da briga e nem quem tem razão. Mas eu conheço a sua mãe. Então a melhor maneira de resolver isso é com um humilde pedido de desculpas. Do tipo rabinho entre as pernas.
Ela é sua mãe, cara. Te ama mais do que tudo nessa vida. Sabe, ela escolheu parto normal porque alguém disse que era melhor pra você. Você já viu um parto normal? Pois é, quer demonstração de amor maior que essa?
Pede desculpa. Ela vai te perdoar. Eu não seria tão bonzinho.
Beijo, pai.
Meu pai passava longe de um escritor, era bancário, mas as palavras dele mexeram comigo. Havia mais maturidade nelas do que nos meus quatorze anos de vida. O que não era muito difícil por sinal.
Corri para o quarto da minha mãe e abri a porta. Já estava chorando quando ela, chorando também, virou a cabeça pra me olhar nos olhos. Não lembro o que ela gritou pra mim, algo como “O que você quer?”, mas lembro que andei até ela e a abracei, ainda segurando a carta do meu pai. Amassando o papel já velho entre os meus dedos. Ela me abraçou de volta e ficamos em silêncio por não sei quantos minutos.
A carta do meu pai fez ela rir alguns momentos depois. Fizemos as pazes e conversamos um pouco sobre ele. Ela me contou umas manias estranhas que ele tinha, como comer salame com geleia de morango. De algum modo, senti que ele estava ali. Eu, minha mãe e um pedaço do meu pai, um pedacinho que ele deixou naquele papel. Que bom.
Não demorou muito e li PARA QUANDO VOCÊ PERDER A VIRGINDADE.
Parabéns, filho.
Não se preocupa, com o tempo a coisa fica melhor. Toda primeira vez é um lixo. A minha foi com a puta mais feia do mundo, por exemplo.
Meu maior medo é você ler o envelope e perguntar da sua mãe antes da hora o que é virgindade. Ou pior, ler o que eu acabei de escrever sem nem saber o que é punheta (você sabe, não sabe?). Mas isso também não será problema meu, não é mesmo?
Beijo, pai.
Meu pai acompanhou minha vida toda. De longe, sim, mas acompanhou. Em incontáveis momentos suas palavras me deram aquela força que ninguém mais conseguia dar. Ele sempre dava um jeito de me arrancar um sorriso em um momento de tristeza ou de clarear meus pensamentos num momento de raiva.
PARA QUANDO VOCÊ CASAR me emocionou, mas não tanto quanto PARA QUANDO EU FOR AVÔ.
Filho, agora você vai descobrir o que é amor de verdade. Vai descobrir que você gosta bastante da sua mulher, mas que amor mesmo é o que você vai sentir por essa coisinha aí que eu não sei se é ele ou ela. Sou um cadáver, não um vidente.
Aproveita. É a melhor coisa do mundo. O tempo vai passar rápido, então esteja presente todos os dias. Não perca nenhum momento, eles não voltam mais. Troque as fraldas, dê banho, sirva de exemplo. Acho que você tem condições de ser um pai tão incrível quanto eu.
A carta mais dolorida da minha vida foi também a mais curta do meu pai. Acredito que ele sofreu para escrever aquelas quatro palavras o mesmo que eu sofri por ter vivido aquele momento. Demorou, mas um dia eu tive que ler PARA QUANDO SUA MÃE SE FOR.
Ela é minha agora.
Uma piada. Um palhaço triste que esconde o choro por trás do sorriso de maquiagem. Foi a única carta que não me arrancou um sorriso, mas entendi a razão.
Eu sempre respeitei o combinado com meu pai. Nunca li nenhuma carta antes do momento certo. Tirando PARA QUANDO VOCÊ SE DESCOBRIR GAY, claro. Nunca acreditei que o momento de ler essa carta chegaria, então abri muitos anos atrás. Ela foi uma das mais engraçadas, por sinal.
O que eu posso dizer? Ainda bem que morri.
Deixando as brincadeiras de lado e falando sério (é raro, aproveita). Agora semimorto eu vejo que a gente se importa muito com coisas que não importam tanto. Você acha que isso muda alguma coisa, filho?
Não seja bobo, seja feliz.
Sempre esperei muito pelo próximo momento. Pela próxima carta. Pela próxima lição que meu pai tinha pra me dar. Incrível como um homem que viveu 27 anos teve tanto pra ensinar pra um senhor de 85 como eu.
Agora, deitado na cama do hospital, com tubos no nariz e na traqueia (maldito câncer), eu passo os dedos por cima do papel desbotado da última carta. PARA QUANDO SUA HORA CHEGAR o garrancho quase invisível diz.
Não quero abrir. Tenho medo. Não quero acreditar que a minha hora chegou. Esperança, lembra? Ninguém acredita que vai morrer hoje.
Respiro fundo e abro.
Oi, filho, espero que você seja um velho agora.
Sabe, essa foi a carta mais fácil de escrever. A primeira que eu escrevi. A carta que me livrou da dor de te perder. Acho que estar perto do fim clareia a cabeça pra falar sobre o assunto.
Nos meus últimos dias eu pensei na vida que eu levei. Na minha curta vida, sim, mas que me fez muito feliz. Eu fui seu pai e marido da sua mãe. O que mais eu poderia querer? Isso me deu paz. Faça o mesmo.
Um conselho: não precisa ter medo.
PS: Tô com saudade.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

“É o amor que faz chegar a presença, mesmo quando só a ausência é o que temos.”

O luto parental desafia a vaidade de se perpetuar por meio da descendência. Perde-se a referência de futuro e das possíveis projeções idealizadas nos filhos. Evidencia a fragilidade da vida, assim como a ausência de uma sequência lógica diante da terminalidade. A morte do filho gera mudanças em todo o sistema familiar, repercutindo na relação do casal, dos pais com os filhos vivos e entre os irmãos sobreviventes. Há possibilidade da família se desintegrar, mas também de coconstrução de novos arranjos familiares.
Nosso desafio, há 17 anos, é aceitar e assimilar a morte de nossa filha caçula e prosseguir na vida, como casal; como pais de uma filha sobrevivente; como avós de uma neta de cinco anos, que está aprendendo a amar a tia invisível. Já escutamos inúmeras vezes, que superamos bem o luto. Esse trabalho não é de superação. A proposta é transformar separação em atitude vitalizada. Estímulo a aprendizados, sair da acomodação e ir além, buscando adaptação e renovação. Nesse tempo, muito trabalho e disposição para incluir outros enlutados e convidá-los a estar conosco nessa tarefa em que não se supera, mas repara, recupera, regenera, transforma e transcende a dor da perda.
O luto parental escancara a nossa condição de seres mortais, finitos e esgotáveis e nos apresenta a humildade para digerir essas circunstâncias. Há luto pela morte da ilusão de perfeição como pais; do controle sobre a vida das pessoas que geramos; dos inúmeros sonhos projetados e da falsa sensação de sermos, nós e nossos filhos, pessoas especiais, imunes a qualquer intempérie. O desafio é sobreviver, após a morte de filhos, como pessoas comuns. Essa realidade nos alerta de que não somos donos, mas guardiões da nossa prole. A proposta é evoluir, no processo, do luto à luta, reconhecendo que a dor nos move a aprender, a conectar com a coragem de viver, com a alegria, sem nos paralisar no sofrimento desmedido.
A posse não compreende perda. Ter o filho é diferente de termos a posse de sermos pais. Perdemos, fisicamente, os filhos, mas não perdemos a condição de sermos pais. É a relação amorosa que permite apreender a noção de transcendência na imanência, se manifestando na vida cotidiana. O propósito final da vida não é o de possuir coisas, é o de possuir a si mesmo, pelo exercício contínuo de fazer perguntas, que possam ampliar a consciência. Há perguntas que restringem tais como: Por que eu? Por que comigo? E se …? Mas há perguntas que ampliam: o que me sustenta? O que eu posso aprender de mim? Com quem posso contar? O que posso pedir? O que escolho renunciar? O que priorizo? O que faz sentido?
O desafio como pais é o de ser capaz de continuar a amar depois da perda física. O amor não é mais forte do que a morte, ele é, apesar da morte e fora do seu alcance. O amado foi embora, o amor não. Amor é a gratidão pelo convívio. Como disse Fábio de Melo, “É o amor que faz chegar a presença, mesmo quando só a ausência é o que temos.”

Eduardo Carlos Tavares e Gláucia Rezende Tavares (*)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Só enquanto eu viver...

Fabiana Gomes, esposa apaixonada do Ricardo, Mãe de meninas, Karol, Gabi, Letícia e Mariana. Escrevo esse blogger em memoria e por amor a uma delas, Letícia, muito conhecida pela família como "alegria plena" e pelos amigos virtuais de "Potinho de Ouro" (apelidada assim carinhosamente pelo Papai). Nasceu e Partiu em 2011, aos 6 meses de vida por complicações pós cirúrgica. Quando ela nasceu nossa família realizou-se, e quando ela partiu desestruturou-se, Papai precisou devolver sua unica filha aos céus, a Mamãe perdeu a razão, a noção, a logica, a percepção, a sanidade e a fé, e as irmãs perdeu de uma unica vez, a irmãzinha, o sonho cor de rosa, nossa neném, a alegria plena, o equilíbrio no lar, a estrutura emocional do padrasto, a fortaleza da Mãe. Perdemos tudo! Precisávamos do ar que nos faltava, de um tempo que não chegava, contamos com nossa família muito querida, amigos muito especiais, novos amigos virtuais (Mães de Anjos) tão quanto especiais, ajuda emocional, psíquica, alternativos e medicamentos,  tudo para nos manter de pé. Ao decorrer dos anos fomos recuperando tudo o que havíamos perdido, inclusive Letícia. Hoje quase 5 anos após, posso dizer que ela do alto do céu tem nos ajudado a viver! Não é fácil, ha sequelas, não porque queremos, mas porque somos humanos, não nascemos para enterrar filhos e sim para sermos enterrados por eles, mas seguimos e continuaremos a seguir em frente, um dia de cada de vez!
Do céu também enviou-nos Mariana, trazendo consigo alem da semelhança física e doçura de Letícia, um amor que cura, e tem nos curado a cada dia, desempenhando com perfeição sua missão.
Letícia é um Anjo, jamais vou entender o porque não pode ser apenas minha filha, as pessoas não entendem minha ligação a ela, minha inquietação relacionado a ela,  a quem me julga e critica, se pudessem ao menos imaginar a dimensão do meu amor, entenderiam...
O amor que sinto não cabe em mim, por isso escrevo, por isso exponho, por isso falo tanto, por isso grito, por isso, por isso, por isso...
Só enquanto eu viver...
Mas ha também os que me entendem, me apoia, me acolhe, me da colo, carinho, ouvidos, a quem goste de ler, quem se emociona, quem busca algo de nós, quem aprende algo, quem agrega algo, quem simplesmente nos ame por nosso amor. Sinto me grata, feliz, por que, haaaa, nosso amor é mesmo lindo!
Haverá um dia que deixara de ser triste para ser apenas lindo, esse dia ta chegando, quem acompanha do comecinho percebe a evolução, o que antes era apenas dor, tornou-se saudade, e hoje amor!
Por amor,
Por ama-la,
Por tanto, tanto ama-la um alguém chamada Letícia Novaes Gomes, eternamente minha!
ELA VIVE EM MIM!


sábado, 18 de junho de 2016

15 da Gabi

Gabriela, 
Chegou o seu dia! sei que a sementinha que diariamente eu plantei, está aí, guardadinho dentro de ti, onde situação alguma, tempo algum poderá mudar, sei que vc sabê! Sei que vc lembra! Sei vc sente! 
Talvez esteja escondida, talvez inibida, mas eu sei que nada se perdeu! Eu sei!
Não diferente dos últimos anos, um filme passou por minha cabeça, um filme grande de 14 anos, 9 meses e 9 dias, nesse filme vivemos uma vida, dividido por momentos, bons, ruins, alegres, tristes, felizes, dores, conquistas, perdas, amor, luto, saúde, doença, força, fraqueza, decepção, etc, etc, etc...Sempre movidas pelo incondicional amor! 
Vi por acaso esse texto, dia desses, e guardei para compartilhar com vc, adaptei, leia, eu te amo!
"Sou sua mãe, e isso não mudará! Se não fui absolutamente boa para você, eu tentei! e veja, não foi nada fácil:
Já senti o desespero de não saber o que fazer perante um choro...
Senti o medo arrepiar os pêlos na minha pele, perante a temperatura marcada em um termômetro.
Fiquei noites e mais noites, exausta, com as pernas trêmulas, tirando forças da própria alma, andando pela casa, com Você embalada em um cobertor.
Chorei todas as minhas lágrimas, sentada na beirada da cama, em meio ao sofrimento de amamentar, ou em meio a culpa de não conseguir amamentar.
Amassei as batatas, passei o feijão na peneira, bati o espinafre, me preocupei extremamente com o tempero e fiz vários, milhares, "aviões" de colher... 
Tudo para você cuspir depois... Tudo em vão...
Senti e ainda sinto medo do mundo, da violência, das guerras, das epidemias... 
Do seu futuro, meu futuro.
Segurei sua mão, amparei teus passos, lhe ensinei a falar... soletrei o "ma-mãe" o Ka-lau, e todo o resto.
Corri descalça, joguei bola, deitei no chão, lhe entreguei os meus batons e as minhas relíquias, e vi você os quebrar...
Eu não quis te deixar, fiquei em casa, chorei por não poder voltar ao trabalho.
E quando tive que voltar chorei por ter que te deixar...
Ensinei-a a pegar no lápis, a manusear a tesoura, a se defender a se levantar... briguei na escola, discuti com a diretora, e dei uns safanão no menino que te perseguia. Limpei teu nariz, cortei tuas unhas, penteei teus cabelos, e olhando dentro de seus olhos dizia que vc era a menina mais linda do mundo, da escola, vc se lembra?
A aquecia no inverno, e no verão também.
Senti vontade de fugir, sair correndo, jogar tudo para o alto, morrer e não morri por sua causa, por amor a Vc!
Chorei sozinha no banheiro, chorei sozinha no quarto, chorei enquanto preparava o jantar... Sem entender um motivo certo.
Perdi a paciência ... Gritei... Dei um tapa... Te sacudir... Gritei... Falei palavrões...
Chorei de novo.
Larguei o meu resfriado para cuidar do seu, larguei a minha vaidade para me doar para ti,
troquei a minha novela pelo seu desenho, deixei a minha vida para viver a sua.
Te carreguei no ventre, te carreguei no colo, te carreguei nas costas, te carreguei nos ombros, te carreguei na alma... Te cravei no meu coração.
Um dia você quis partir, e mesmo me rasgando a alma ... Você fui... quis impedir, não consegui, talvez eu adoeci, ou simplesmente não seja realmente uma mãe boa para você, deixei Você ir, não cabe a mim decidir mais.. Tenho em minha consciência que dei o meu melhor, mesmo errando muito errei!
Tudo que fiz, e o que não fiz... Foi por você.
Independente de ser certo ou não.
Foi tudo pensando em você.
Porque você é a minha vida, a minha razão, minha menina do meio.
Eu fiz porque nenhum prazer é maior que a sua felicidade.
Eu fiz esperando sim algo em troca, seu esforço, sua dedicação para com vc própria, um dia não estarei mais aqui, e essa sempre foi minha grande preocupação! 
Eu fiz porque eu te amo!
Eu fiz porque você é minha filha!
Eu fiz porque eu sou sua mãe!"


Parabéns, festeje seu dia hoje, te espero amanhã para abraça-la conforme o combinado, obrigada por sua compreensão, seja feliz, tenha um lindo dia, um lindo conto de fadas, eu te amo!