Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

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Todos os dias ela vive em mim, mas datas invade-me!
Dia 05 ela nasceu, eu me permito sentir todas dores, mas acima de tudo "Gratidão"
Dia 15 ela foi para o céu, e eu sou revolta, questionamentos, mais ainda sou amor!
Dia das mães ela é ainda mais minha!
Dia 25 é natal, dia em que faço meus pedidos, de misericórdia, compreensão e força!

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Analisa o luto e vê o amor

Um dos maiores especialistas em luto no mundo, o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes, 77, parou na frente de uma escultura em mármore negro, a de que mais gostou em seu passeio pela Pinacoteca do Estado de São Paulo na tarde da última sexta-feira.
"Está quebrada, mas inteira. A impressão é que quebrou, mas continua inteira, continua uma pessoa, uma vida, uma coisa. É reconhecer o valor das duas partes, mesmo quebradas", disse Parkes, que é consultor do St. Christopher's Hospice, em Londres, uma instituição para pacientes fora de possibilidades terapêuticas .
"Figura Quebrada", obra de 1975 do compatriota Henry Moore, materializou a teoria de Parkes sobre a dor da perda, construída durante mais de 50 anos.Para Parkes, o luto é o preço que se paga pelo amor, por uma vida feliz. É assim que ele impulsiona seus pacientes a não esquecer, mas seguir com a boa lembrança. Para ele, o luto é uma importante transição, pode ser um momento para recriar a própria história, diz."O apego é poderoso, e quando o apego é quebrado, você se sente exatamente assim. O que essa escultura capturou é que, ainda assim, é bonito", disse Parkes, que desfrutava do único dia livre de sua passagem na semana passada pela capital paulista para o 3º Congresso Brasileiro de Tanatologia [estudos sobre a morte] e Bioética. O evento que terminou ontem foi promovido pelo Instituto 4 Estações e por centros de estudos sobre a morte e o luto da Pontifícia Universidade Católica e da Universidade de São Paulo. O evento foi tão procurado que começou com lotação esgotada.Veja a seguir outros trechos da entrevista concedida à Folha.
Colin Murray Parkes - Muitas coisas diferentes contribuíram para isso. Uma delas foi meu descontentamento com a forma como alguns médicos tratam seus pacientes. Mesmo quando eu era um jovem estudante de medicina, era interessado em psicologia, tinha vontade de estudar os fatores de estresse dos pacientes e ajudá-los nesses momentos decisivos, quando você se depara com as perdas ou fica doente.
Eu vejo a morte e o luto como parte dos eventos que mudam a vida, o que inclui a perda, que sempre traz um elemento de ganho. O nascimento de um bebê pode ser muito traumático, dolorido, pode ser uma perda também, em alguns pontos de vista, e é ainda um ganho tremendo. A parte recompensadora de trabalhar com pessoas que estão vivendo o luto é vê-las crescer. Eu acho que uma das coisas que o luto ensina é que as pessoas que amamos nunca perdemos. Elas são parte da nossas vidas para sempre.
Quando alguém diz "ele vive em minha memória", isso é verdade. O problema é que, no primeiro momento em que se perde alguém, sente-se que todas as coisas boas que vieram com essa pessoa se perderam também. Só quando a pessoa pára de tentar recuperar é que percebe que nunca perdeu.
Parkes - Claro que é. Mas a dor do luto é igual à do nascimento, como disse. É doloroso, mas algo bom pode vir com isso. Você se sente fraco, carente, mutilado, acha que tudo o que é importante foi embora. Mas a mesma pessoa, talvez dois, três, quatro anos depois vai dizer coisas como "estou surpreso sobre o quanto sou forte". Eles percebem que sobreviveram, que começaram a valorizar a si mesmos e à pessoa que morreu de uma nova maneira, que é mais madura. Não estou sendo Pollyana, eu não espero que minha mulher morra. Mas não importa se eu vou morrer antes dela ou ela antes de mim. Quando isso acontecer, nós sabemos que poderemos continuar um sem o outro.
Parkes - Eu diria que isso é parte de um lado espiritual. Porque espiritualidade é achar um sentido na vida, qualquer que seja a linguagem que você utiliza para explicar esse significado. Muitas pessoas gostam da linguagem de Deus. Quando trabalhamos com pessoas que vivem o luto estamos fazendo o que os padres fazem, tentando ajudá-las a achar um novo significado.
Parkes - Não há dúvida de que o luto é a experiência psicológica mais dolorosa que qualquer pessoa irá viver, e, quanto maior é o amor, maior é essa dor. Não há dúvida, o luto é um preço que temos de pagar. Algumas pessoas acham seu luto tão doloroso que ficam com medo de amar novamente. Mas o preço vale a pena.
Parkes - Isso certamente ajuda. As perdas são inevitáveis na vida. Perdas que podem ser de uma boneca ou de uma pessoa. E os pais devem aproveitar essas oportunidades para ajudar as crianças a aceitar que a perda é parte da vida.
Eu estava dirigindo com minhas filhas no carro uma vez -elas tinham cinco, três e dois anos de idade- e uma delas viu um gato morto. Eu parei e disse: vocês querem ver? Começou um debate [risos]. Elas decidiram que sim e eu dei permissão. Ainda bem que o gato não estava em um estado tão ruim [risos]. Mas conversamos sobre o que aconteceria com ele. Eu disse que um dia poderia virar adubo, que faria mais flores bonitas crescerem em um jardim. Alguns dias depois a mais nova perguntou: "Pai, o que vai acontecer com você quando você morrer?" Eu perguntei o que ela achava. "Adubo!", ela respondeu.
Parkes - Um exemplo é se sua mulher ou seu marido tem o mal de Alzheimer, uma demência. Ela se torna uma pessoa diferente, infantil, insensível. Você lamenta pela pessoa que perdeu. Algumas pessoas conseguem superar isso, lembrar como a pessoa era.
É assim também com a mãe, que sempre espera uma criança perfeita e tem um bebê com uma deficiência física. Algumas irão rejeitar essa criança.
Se você puder ajudar essas pessoas em seu luto, elas poderão chegar à conclusão de que sim, é muito triste, mas que podem amar de uma maneira diferente e até mais forte. Sim, e pode haver luto mesmo se você perder o que nunca teve. É o caso de alguém que sempre quis se casar e o noivo abandonou antes da cerimônia.
Parkes - É uma decisão muito difícil. Há muitas pessoas envolvidas. Não é só a questão sobre se o sofrimento justifica uma autorização para que o paciente morra. Mas como irá afetar pais, irmãos. Sim, sabemos que há as questões econômicas. Se bloqueio este leito, outras cinco pessoas irão morrer. Não há resposta simples. Essa questão não tem que ser decidida na base do "não matarás", ou de preconceitos, mas em um contexto em que todas as variáveis têm que ser levadas em conta, incluindo familiares e políticas de saúde.




Folha - Por que o senhor escolheu trabalhar com o luto?
Folha - Viver diariamente outros lutos é doloroso para o senhor ?
Folha - Alcançar isso independe de uma crença religiosa?
Folha - O senhor afirma em seu livro que o luto é o preço que pagamos pelo amor, por termos aceitado compromissos em nossas vidas. O luto é inerente a uma vida feliz?
Folha - É possível educar para o luto?
Folha - O senhor fala de outros lutos, que existem mesmo quando não há a morte.
Folha - Como as políticas de saúde devem lidar com a morte? No Brasil a criação de regras para a manutenção de terapia intensiva gerou acusações de que o governo queria um holocausto. A mesma comoção que há sobre a eutanásia.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Sobre amores eternos

Não me peça para calar o nome de quem partiu, 
não seria justo com as nossas histórias,
Me empreste seus ouvidos,
deixe que eu fale do amor que transcende,
atravessa rios e terras, brinca com o sol e a lua,
Gentilmente, peço lugares pra espalhar minha saudade,
no meu coração não cabem despedidas,
meus olhos, queixosos, aprenderão a encontrar o amor,
serei irmã do entardecer, abraçarei os pássaros no poente,
suavemente, me entregarei ao barulho do riacho e do vento,
Nesse processo lento, 
que acompanhará o tamanho do meu amor,
seja paciente com minhas lágrimas,
despertarei no meio da noite, assustada com pesadelos reais,
até que me acostume com o que não se acostuma,
Me cubra com seus braços, me diga que ficará tudo bem,
me ensina a ternura das flores,
até que eu encontre, no meu coração, 
caminhos confortáveis para a minha saudade...
(Teresa Gouvea)

sexta-feira, 15 de junho de 2018

ELA VIVE EM MIM

Quando eu perdi minha filha, pensei que iria morrer, mas não morri.
Chorei até perder o fôlego, mas respirei novamente....
Me desesperei, pensei que iria enlouquecer, mas não enlouqueci... 
Questionei, briguei comigo mesma, revi conceitos e modifiquei regras.
Senti tanta dor como se meu corpo estivesse todo dilacerado, mas fiquei de pé. 
Eu não morri. 
A dor que apertava  meu peito era companheira, e mostrava o que eu não queria enxergar .
O sono não vinha, a fome foi embora, meu corpo não me encontrava. 
Minha mente se perdia em pensamentos distantes, mas o tempo passava e a vida seguia.
E eu não morri...
Me encontrei...
Em meio aos cacos, fui me reconstruindo, renascendo... foi preciso.
Ainda não terminou enquanto Deus não dizer que é o fim,
Mas a cada dia reconstruo um novo pedaço de mim. 
Junto os cacos... Coloco um sorriso no rosto e vou caminhando ...
Sigo ressuscitando minha filha dentro do meu coração todos os dias...
E assim não permito que minha filha morra.

Zelma Vietro.

sábado, 19 de maio de 2018

Sem tempo para o adeus

Seguirei, carregando você nos lugares mais íntimos do meu  coração, certa que somos tudo quando entendemos que somos nada, certa que a eternidade é um lugar interno, que a gente não toca, não controla e não retém, apenas sente. Nos finais de tarde e noites enluaradas, teremos longas conversas internas, contarei sobre essa travessia, as tantas lágrimas, pesadelos e sonhos que percorri até te encontrar no entardecer e no luar e, somente então, minhas mãos dirão adeus, certa que cheguei até o nosso “pra sempre” .
(Teresa Gouvea)

domingo, 13 de maio de 2018

No dia em que você foi embora

Difícil falar em tempo, a saudade o torna muito confuso mas, ao mesmo tempo, difícil esquecer que nesse dia você partia, deixando tantos lugares vagos e sonhos interrompidos. Os dias foram nos dizendo da necessidade de encontrar delicadezas nas despedidas, afinal, nem sempre sabemos o que fazer com a ausência dos olhares e sorrisos, da voz e desses sinais que pausam e desaparecem do nosso mundo. Somos pequenos e brigamos com a vida. O amor vira dor e, por ser tanto amor, exige o encontro de outros lugares. Amanhecer foi pedindo que nós encontrássemos lugares no coração e nas memórias pra você, amanhecer foi pedindo mais amor ainda pra dar um jeito na saudade. Você foi virando esses lugares que não traduzimos, virou sol, lua, entardecer e flores, meu amor, você virou os desenhos mais lindos da vida. Te amaremos mais ainda, porque amar na ausência é espalhar você  no mundo, encontrando lugares de paz.

(Teresa Gouveia)

Ato de coragem

Quando ocorre a morte de um filho, os pais sentem um choque profundo e forte com essa dor, pois eles sofrem e choram a perda de – um pedaço de si mesmo, que nunca mais voltará, um pedaço da alma que se parte em centenas de pedaços e nem o tempo, com sua sabedoria, será capaz de juntar e colar esses estilhaços.Os pais acreditam que segundo a lei da natureza e divina deveriam morrer antes de seus filhos. Mas isso, infelizmente, não é um princípio da vida. O escritor José Saramago resumiu essa dor: “Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado”.Nesse momento muitos pais clamam a Deus que troquem uma vida pela outra. São manifestações de corações despedaçados por um sentimento insuportável. Cada pai e mãe sentirá a dor da perda do jeito que as condições lhe permitirem. Dor é dor e nunca conseguiremos entender tudo que percorre na mente e no peito dos pais que vivenciam a perda dos seus filhos.A evolução da vida continua e os pais sabem que é preciso aos poucos recompor o que está esfacelado, da maneira que puderem e mesmo com as feridas ainda abertas, para superar o difícil caminho do luto. Eric Clapton disse: “Usei a canção para tentar curar minha dor”. Nesta estrofe, ele canta, que não haverá mais pranto no céu:Assim os pais chorem o que tiver para chorar, mas não fechem seu coração, não percam a chance de reaprender a sorrir. Sobretudo, se têm outros filhos – que precisam de seus pais. Com diz o verso da música: “Eu encontrarei o meu caminho pela noite e pelo dia, porque eu sei que não posso ficar aqui no paraíso. ”q