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Bem ti vi

Para você, Letícia, meu Bem-te-vi".
Viste, hoje, o passarinho na janela?
Tão frágil, tão pequeno, tão delicada fera.
Parece procurar-te, de primavera, em primavera. Até pousar cansado, noutra janela.
Ouviste-lhe, acaso, o canto de saudade? Também eu te procuro minha bela.
Encontro-te no meu peito, fiz-te um ninho, aconcheguei-te no meu altar.
É que aquele passarinho na janela lembrou-me o dia que há muito já perdi.
Bem me quiseste, e tanto bem te quis...
Quiseste mais, eu sei, compreendi. Tu frágil, doce, bela...
Lembro-me de ti. Esquecer-te, meu amor, seria como me esquecer de mim.
É que aquele último dia cerrou-te os olhos delicadamente, e entre beijos eu te vi partir...
Voaste!... Voaste firme e decididamente.
De volta para dentro de mim,
E eu... Fiquei aqui, a lembrar-te de ti, a sonhar contigo, esperando o dia em que poderei te ter aqui, em meus braços para abraçar-te, beijar-te, beijar-te, beijar-te..
Te espero até depois do fim.

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Todos os dias ela vive em mim, mas datas invade-me!
Dia 05/04 ela nasceu, eu me permito sentir todas dores, mas acima de tudo "Gratidão"
Dia 15/10 ela foi para o céu, e eu sou revolta, questionamentos, mais ainda sou amor!
Maio mês das mães, das flores, do meu nascimento e nesse mês, ela é ainda mais minha!
Dia 25/12 é natal, dia em que faço meus pedidos, de misericórdia, compreensão e força!

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Reflexão

 "Quando uma mãe enterra um filho, ela literalmente MORRE JUNTO COM ELE. Temos exemplos de muitas mulheres que demonstram uma força enorme, e buscamos seguir umas às outras esses exemplos.  Montamos grupos, frequentamos especialistas, buscamos ajuda em todos os níveis...  Viramos heroínas pra muitas, pra outras, exemplos de força e superação.  Buscamos incessantemente a luz no fim do túnel, a bóia salva vidas, o consolo do colo familiar ou amigo. Viramos do avesso e desviramos todos os dias pra dar conta desse recado tão difícil e inesperado que a vida nos impôs, que foi o de ENTERRAR NOSSO PRÓPRIO FILHO!!!

Ficamos repetitivas, neuróticas, chatas, bipolares...  e com isso afugentamos amigos e família. Querem nos ver pelas costas porque a nossa tristeza, mesmo que disfarçada, incomoda !! 

Por outro lado, NÃO ACEITAMOS algumas coisas que antes passava batido: HIPOCRISIA, FALTA DE CARÁTER, FALTA DE DIGNIDADE,  DISPLICÊNCIA, FALTA DE COMPROMISSO, FALTA DE AMOR E RESPEITO.  A dor, quando bem assimilada, te exalta, te engrandece e te faz SUPERIOR ESPIRITUALMENTE , talvez por isso não tenhamos mais PACIÊNCIA COM PESSOAS IRRESPONSÁVEIS VOLÚVEIS E SEM RESPEITO COM OS SENTIMENTOS E COM AS PESSOAS!!!

Olhando as redes sociais de algumas dessas mães, vejo que somos todas “farinha do mesmo saco”, umas mais simples, outras mais letradas,  a maioria faz versos de sua dor. 

Somos todas DIGNAS DE RESPEITO, isso é fato!! Carregar esse sentimento dia após dia sem ter outra opção não é brincadeira.  E essa luz no fim do túnel não existe! Existe sim, uma FÉ QUE NOS MOVE, ou seja, a MÃO DO UNIVERSO, que nos empurra ou só menos nos ajuda a seguir sempre em frente."

domingo, 15 de outubro de 2023

Imagine

Imagine que você ouviu essas palavras:

- Seu filho está morto!


Imagine-se colocando teu ouvido no peito do seu filho e não ouvir um bater de coração.
Imagine-se beijando seu filho e sentir o gelo de pele dele em teus lábios.
Imagine-se numa sala cheia de caixões e você tendo que escolher o que guardará seu filho para sempre.
Imagine que seu filho ser levado para nunca mais ser visto novamente.
Imagine que você nunca vai poder olhar para os olhos do seu filho outra vez.
Imagine que você nunca vai ouvir sua voz, nunca mais irá abraçá-lo, ouvir a risada do seu filho novamente!
Imagine-se vivendo o resto de sua vida sem o seu filho!
Imagine buscar a chance de olhar nos olhos do seu filho novamente, de tentar inutilmente acordar desse pesadelo...a dor nos seus olhos diariamente.
Imagine dizer EU TE AMO esperando ouvir um: - Também amo você mamãe - e ouvir apenas o silêncio como resposta!
Imagine-se sobrevivendo diariamente para o resto da sua vida com isso!
Imagine sobreviver à tudo isso.
Sei que você deve pensar:

- Eu não consigo imaginar minha vida sem meu filho, eu morreria!


Se você não pode sequer IMAGINAR estes momentos horríveis, então pare!
Pare de me dizer que devo esquecer tudo e seguir em frente, de me pedir para não chorar por meu filho, pare de tentar me impedir de lembrar dele!
PARE! PAREM!
Coloque-se ao menos por um minuto no meu lugar, tente por apenas alguns segundos sentir a minha dor!
Você não consegue??
NÃO?!
Nem ao menos eu consigo entender, aceitar, suportar, sobreviver, eu apenas continuo... cada segundo de cada dia.
Coloque-se no meu lugar e em seguida, ouça um: - Esquece, faz tanto tempo! Tá na hora de seguir em frente!
PONHE-SE EM MEU LUGAR, TE DESAFIO A IMAGINAR


sábado, 13 de maio de 2023

Ato de coragem

Quando ocorre a morte de um filho, os pais sentem um choque profundo e forte com essa dor, pois eles sofrem e choram a perda de – um pedaço de si mesmo, que nunca mais voltará, um pedaço da alma que se parte em centenas de pedaços e nem o tempo, com sua sabedoria, será capaz de juntar e colar esses estilhaços.Os pais acreditam que segundo a lei da natureza e divina deveriam morrer antes de seus filhos. Mas isso, infelizmente, não é um princípio da vida. O escritor José Saramago resumiu essa dor: “Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado”.Nesse momento muitos pais clamam a Deus que troquem uma vida pela outra. São manifestações de corações despedaçados por um sentimento insuportável. Cada pai e mãe sentirá a dor da perda do jeito que as condições lhe permitirem. Dor é dor e nunca conseguiremos entender tudo que percorre na mente e no peito dos pais que vivenciam a perda dos seus filhos.A evolução da vida continua e os pais sabem que é preciso aos poucos recompor o que está esfacelado, da maneira que puderem e mesmo com as feridas ainda abertas, para superar o difícil caminho do luto. Eric Clapton disse: “Usei a canção para tentar curar minha dor”. Nesta estrofe, ele canta, que não haverá mais pranto no céu:Assim os pais chorem o que tiver para chorar, mas não fechem seu coração, não percam a chance de reaprender a sorrir. Sobretudo, se têm outros filhos – que precisam de seus pais. Como diz o verso da música: “Eu encontrarei o meu caminho pela noite e pelo dia, porque eu sei que não posso ficar aqui no paraíso. ”

quarta-feira, 5 de abril de 2023

NÃO HÁ FINAL

Você passou por mim como um lampejo
Uma luz que continua a me acompanhar
O tempo voa e mesmo assim eu vejo
O seu brilho que jamais vai se apagar
Depois que você esteve aqui tudo mudou
Não sou mais quem eu costumava ser
Mesmo breve sua passagem me marcou
É simplesmente impossível te esquecer
Você chegou e foi logo me dando tchau
Revelando o valor que cada segundo tem
Com sua partida aprendi que não há final
Para o sentimento que temos por alguém
O amor é mais forte do que se imagina
Tem o poder de eliminar uma ausência
Quando a gente ama o vínculo não termina
É ele que eterniza em mim a sua existência

(Texto retirado da internet)

domingo, 25 de dezembro de 2022

Sobre Paciência e memória

Paciência, sim, paciência com meus dias de dor, meu mundo precisa ser redescoberto, meus dias reinventados, difícil abrir armários que guardam cheiros,
tirar as roupas, os sapatos, os perfumes,
todo esse mundo físico que me conta sobre quem partiu, minhas mãos estão perdidas, meus pés vacilantes, minha casa e meu coração silenciosos,
Paciência, com a minha voz que fala o nome dela, repete tantas e tantas histórias, resgata na memória os alívios, nas lembranças, um jeito de acomodar esse amor, me perdoem, não posso deixa-la partir definitivamente, preciso de partes dela no que sou,
Paciência, sim, paciência com esse amor reinventado...

(Teresa Gouvea)

sábado, 15 de outubro de 2022

Amar na ausência

Difícil falar em tempo, a saudade o torna muito confuso mas, ao mesmo tempo, difícil esquecer que nesse dia você partia, deixando tantos lugares vagos e sonhos interrompidos. Os dias foram nos dizendo da necessidade de encontrar delicadezas nas despedidas, afinal, nem sempre sabemos o que fazer com a ausência dos olhares e sorrisos, da voz e desses sinais que pausam e desaparecem do nosso mundo. Somos pequenos e brigamos com a vida. O amor vira dor e, por ser tanto amor, exige o encontro de outros lugares. Amanhecer foi pedindo que nós encontrássemos lugares no coração e nas memórias pra você, amanhecer foi pedindo mais amor ainda pra dar um jeito na saudade. Você foi virando esses lugares que não traduzimos, virou sol, lua, entardecer e flores, meu amor, você virou os desenhos mais lindos da vida. Te amaremos mais ainda, porque amar na ausência é espalhar você  no mundo, encontrando lugares de paz.

(Teresa Gouveia)

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Efeito dominó

Engana-se quem pensa que perdi "só uma filha".  É impressionante o tamanho do estrago, do efeito dominó que se deu em TODAS as áreas da minha vida. Impossível reconstruir tudo. Perdi tanta coisa junto! Quem perde um filho perde a si também e essa dor psíquica de reconstruir-se é imensa. São tantas perdas, tantos lutos juntos! "Retomar" a vida ou voltar ao que era antes de tudo inexiste. A energia que essa reconstrução demanda é tão insuportavelmente grande, intensa, imensa, que, ainda hoje, sinto o baque de tudo. Amigos, profissão, família. Nada mais é igual. Ainda estou a catar os cacos no chão. A tentar entender que nunca mais serei a mesma de 2011. Nunca mais. Entender eu até entendo, mas às vezes esperneio para ver se o caminho se abranda e se compadece. Não existe superação. Existe sobrevivência à morte de um filho. Os dias seguem e um dia a maré acalma. Vez ou outra uma tempestade vem, mas o rumo mudou de vez. Não se navega mais para onde se desejava ir. Não foi só uma perda: foram milhares. E cuidar de cada uma delas leva tempo, energia emocional e dói. Muito.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Respira saudade

Ela reverte a lei da vida,
Quando esse filho parte, o retorna, não apenas em seu ventre, mas em todo o seu corpo...
Respira a saudade, respira a história que tiveram, incorporado, ele segue com ela.
Segue nos intervalos dos seus dias, nas conversas íntimas com ele, segue quando expõe sua dor.
Segue quando revira fotografias, músicas, filmes, livros, amigos, memórias, qualquer lugar que o lembre...
Segue quando tece essa colcha repleta de retalhos, tão coloridos, tão lindos, pedaços de sua passagem, que vão e voltam, deixando seus dias mais quentes...
Como mãe ela sabe da impossibilidade da morte desse filho, ele jamais deixará de existir...
Sendo mãe, ela a devolve a vida, ele passa a viver dentro dela.

(Trecho do livro "Dirge Of The Lion" obra de minha linda e querida Amanda Tinoco, em homenagem ao filho amado e poeta Gabriel Leão)



sábado, 25 de dezembro de 2021

Sobre saudades imensas

E nos dias de saudade imensa, tão profunda que não caberão  legendas alheias, calmamente aguardarei a chegada da noite. Despida da roupa que uso lá fora, deitarei ouvindo uma melodia de paz, em comunhão com o universo. Conversarei com você, relembrarei as cenas da nossa vida, sentirei minha alma sendo tocada pelas suas mãos, meus ouvidos pela sua voz, meu coração pelo amor que nos une, ultrapassando qualquer distância. Nesse silêncio cheio de palavras você me contará sobre o sentido da eternidade, minha saudade, como criança embalada por essa cantiga, adormecerá.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Tristeza também é um jeito de amar...

Me despeço de você, silenciosamente,
tenho medo que algum barulho atrapalhe essa dor,
sua morte me concede o direito de recusar a pressa,
me fala da vida, dessa loucura que é viver,
da correria que tira nossos olhos pra quem está ao lado,
do corpo cansado, exausto, sem pausas,
sua morte me fala de um sentido nem sempre sentido,
da quietude da noite, esse lugar em que me dispo,
fico diante de quem fui e de quem sou,
me despeço de você, silenciosamente,
um jeito de fazer uso da sua partida,
devolvendo, todos os dias, alma pra minha vida,
tocando o riacho, sentindo a brisa,
conversando com a lua, brincando com as árvores,
sentindo saudade, muita saudade,
dando lugar pra tristeza porque também é um jeito de amar…
LL
(Teresa Gouvea)

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Sem tempo para o adeus

Seguirei, carregando você nos lugares mais íntimos do meu  coração, certa que somos tudo quando entendemos que somos nada, certa que a eternidade é um lugar interno, que a gente não toca, não controla e não retém, apenas sente. Nos finais de tarde e noites enluaradas, teremos longas conversas internas, contarei sobre essa travessia, as tantas lágrimas, pesadelos e sonhos que percorri até te encontrar no entardecer e no luar e, somente então, minhas mãos dirão adeus, certa que cheguei até o nosso “pra sempre” .
(Teresa Gouvea)

segunda-feira, 5 de abril de 2021

ELA VIVE EM MIM

Quando eu perdi minha filha, pensei que iria morrer, mas não morri.
Chorei até perder o fôlego, mas respirei novamente....
Me desesperei, pensei que iria enlouquecer, mas não enlouqueci... 
Questionei, briguei comigo mesma, revi conceitos e modifiquei regras.
Senti tanta dor como se meu corpo estivesse todo dilacerado, mas fiquei de pé. 
Eu não morri. 
A dor que apertava  meu peito era companheira, e mostrava o que eu não queria enxergar .
O sono não vinha, a fome foi embora, meu corpo não me encontrava. 
Minha mente se perdia em pensamentos distantes, mas o tempo passava e a vida seguia.
E eu não morri...
Me encontrei...
Em meio aos cacos, fui me reconstruindo, renascendo... foi preciso.
Ainda não terminou enquanto Deus não dizer que é o fim,
Mas a cada dia reconstruo um novo pedaço de mim. 
Junto os cacos... Coloco um sorriso no rosto e vou caminhando ...
Sigo ressuscitando minha filha dentro do meu coração todos os dias...
E assim não permito que minha filha morra.

Zelma Vietro.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Sobre amores eternos

Não me peça para calar o nome de quem partiu, 
não seria justo com as nossas histórias,
Me empreste seus ouvidos,
deixe que eu fale do amor que transcende,
atravessa rios e terras, brinca com o sol e a lua,
Gentilmente, peço lugares pra espalhar minha saudade,
no meu coração não cabem despedidas,
meus olhos, queixosos, aprenderão a encontrar o amor,
serei irmã do entardecer, abraçarei os pássaros no poente,
suavemente, me entregarei ao barulho do riacho e do vento,
Nesse processo lento, 
que acompanhará o tamanho do meu amor,
seja paciente com minhas lágrimas,
despertarei no meio da noite, assustada com pesadelos reais,
até que me acostume com o que não se acostuma,
Me cubra com seus braços, me diga que ficará tudo bem,
me ensina a ternura das flores,
até que eu encontre, no meu coração, 
caminhos confortáveis para a minha saudade...
(Teresa Gouvea)

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Analisa o luto e vê o amor

Um dos maiores especialistas em luto no mundo, o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes, 77, parou na frente de uma escultura em mármore negro, a de que mais gostou em seu passeio pela Pinacoteca do Estado de São Paulo na tarde da última sexta-feira.
"Está quebrada, mas inteira. A impressão é que quebrou, mas continua inteira, continua uma pessoa, uma vida, uma coisa. É reconhecer o valor das duas partes, mesmo quebradas", disse Parkes, que é consultor do St. Christopher's Hospice, em Londres, uma instituição para pacientes fora de possibilidades terapêuticas .
"Figura Quebrada", obra de 1975 do compatriota Henry Moore, materializou a teoria de Parkes sobre a dor da perda, construída durante mais de 50 anos.Para Parkes, o luto é o preço que se paga pelo amor, por uma vida feliz. É assim que ele impulsiona seus pacientes a não esquecer, mas seguir com a boa lembrança. Para ele, o luto é uma importante transição, pode ser um momento para recriar a própria história, diz."O apego é poderoso, e quando o apego é quebrado, você se sente exatamente assim. O que essa escultura capturou é que, ainda assim, é bonito", disse Parkes, que desfrutava do único dia livre de sua passagem na semana passada pela capital paulista para o 3º Congresso Brasileiro de Tanatologia [estudos sobre a morte] e Bioética. O evento que terminou ontem foi promovido pelo Instituto 4 Estações e por centros de estudos sobre a morte e o luto da Pontifícia Universidade Católica e da Universidade de São Paulo. O evento foi tão procurado que começou com lotação esgotada.Veja a seguir outros trechos da entrevista concedida à Folha.
Colin Murray Parkes - Muitas coisas diferentes contribuíram para isso. Uma delas foi meu descontentamento com a forma como alguns médicos tratam seus pacientes. Mesmo quando eu era um jovem estudante de medicina, era interessado em psicologia, tinha vontade de estudar os fatores de estresse dos pacientes e ajudá-los nesses momentos decisivos, quando você se depara com as perdas ou fica doente.
Eu vejo a morte e o luto como parte dos eventos que mudam a vida, o que inclui a perda, que sempre traz um elemento de ganho. O nascimento de um bebê pode ser muito traumático, dolorido, pode ser uma perda também, em alguns pontos de vista, e é ainda um ganho tremendo. A parte recompensadora de trabalhar com pessoas que estão vivendo o luto é vê-las crescer. Eu acho que uma das coisas que o luto ensina é que as pessoas que amamos nunca perdemos. Elas são parte da nossas vidas para sempre.
Quando alguém diz "ele vive em minha memória", isso é verdade. O problema é que, no primeiro momento em que se perde alguém, sente-se que todas as coisas boas que vieram com essa pessoa se perderam também. Só quando a pessoa pára de tentar recuperar é que percebe que nunca perdeu.
Parkes - Claro que é. Mas a dor do luto é igual à do nascimento, como disse. É doloroso, mas algo bom pode vir com isso. Você se sente fraco, carente, mutilado, acha que tudo o que é importante foi embora. Mas a mesma pessoa, talvez dois, três, quatro anos depois vai dizer coisas como "estou surpreso sobre o quanto sou forte". Eles percebem que sobreviveram, que começaram a valorizar a si mesmos e à pessoa que morreu de uma nova maneira, que é mais madura. Não estou sendo Pollyana, eu não espero que minha mulher morra. Mas não importa se eu vou morrer antes dela ou ela antes de mim. Quando isso acontecer, nós sabemos que poderemos continuar um sem o outro.
Parkes - Eu diria que isso é parte de um lado espiritual. Porque espiritualidade é achar um sentido na vida, qualquer que seja a linguagem que você utiliza para explicar esse significado. Muitas pessoas gostam da linguagem de Deus. Quando trabalhamos com pessoas que vivem o luto estamos fazendo o que os padres fazem, tentando ajudá-las a achar um novo significado.
Parkes - Não há dúvida de que o luto é a experiência psicológica mais dolorosa que qualquer pessoa irá viver, e, quanto maior é o amor, maior é essa dor. Não há dúvida, o luto é um preço que temos de pagar. Algumas pessoas acham seu luto tão doloroso que ficam com medo de amar novamente. Mas o preço vale a pena.
Parkes - Isso certamente ajuda. As perdas são inevitáveis na vida. Perdas que podem ser de uma boneca ou de uma pessoa. E os pais devem aproveitar essas oportunidades para ajudar as crianças a aceitar que a perda é parte da vida.
Eu estava dirigindo com minhas filhas no carro uma vez -elas tinham cinco, três e dois anos de idade- e uma delas viu um gato morto. Eu parei e disse: vocês querem ver? Começou um debate [risos]. Elas decidiram que sim e eu dei permissão. Ainda bem que o gato não estava em um estado tão ruim [risos]. Mas conversamos sobre o que aconteceria com ele. Eu disse que um dia poderia virar adubo, que faria mais flores bonitas crescerem em um jardim. Alguns dias depois a mais nova perguntou: "Pai, o que vai acontecer com você quando você morrer?" Eu perguntei o que ela achava. "Adubo!", ela respondeu.
Parkes - Um exemplo é se sua mulher ou seu marido tem o mal de Alzheimer, uma demência. Ela se torna uma pessoa diferente, infantil, insensível. Você lamenta pela pessoa que perdeu. Algumas pessoas conseguem superar isso, lembrar como a pessoa era.
É assim também com a mãe, que sempre espera uma criança perfeita e tem um bebê com uma deficiência física. Algumas irão rejeitar essa criança.
Se você puder ajudar essas pessoas em seu luto, elas poderão chegar à conclusão de que sim, é muito triste, mas que podem amar de uma maneira diferente e até mais forte. Sim, e pode haver luto mesmo se você perder o que nunca teve. É o caso de alguém que sempre quis se casar e o noivo abandonou antes da cerimônia.
Parkes - É uma decisão muito difícil. Há muitas pessoas envolvidas. Não é só a questão sobre se o sofrimento justifica uma autorização para que o paciente morra. Mas como irá afetar pais, irmãos. Sim, sabemos que há as questões econômicas. Se bloqueio este leito, outras cinco pessoas irão morrer. Não há resposta simples. Essa questão não tem que ser decidida na base do "não matarás", ou de preconceitos, mas em um contexto em que todas as variáveis têm que ser levadas em conta, incluindo familiares e políticas de saúde.




Folha - Por que o senhor escolheu trabalhar com o luto?
Folha - Viver diariamente outros lutos é doloroso para o senhor ?
Folha - Alcançar isso independe de uma crença religiosa?
Folha - O senhor afirma em seu livro que o luto é o preço que pagamos pelo amor, por termos aceitado compromissos em nossas vidas. O luto é inerente a uma vida feliz?
Folha - É possível educar para o luto?
Folha - O senhor fala de outros lutos, que existem mesmo quando não há a morte.
Folha - Como as políticas de saúde devem lidar com a morte? No Brasil a criação de regras para a manutenção de terapia intensiva gerou acusações de que o governo queria um holocausto. A mesma comoção que há sobre a eutanásia.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

É preciso ser Valente

Reaprendendo a viver depois da morte de um Filho.
É preciso ser valente para acordar, levantar, tocar a vida, e quando todos me dizem: “Bom Dia”!!! eu consigo responder no mesmo tom; “bom dia”!, quando só eu e Deus sabemos como está difícil viver esse dia...
É preciso ser valente, para ver a vida prosseguir, me empurrando quando às vezes a vontade é deitar e deixar a vida passar, mas ela é mais imperiosa que eu...
É preciso ser valente para viver de lembranças, guardar fotos, filmes como os maiores tesouros que me restam...
É preciso ser valente para muitas vezes permanecer calada, quando a vontade é gritar, colocar pra fora todo o desespero da alma na saudade de um abraço único que num momento “mágico” desapareceu...
É preciso ser valente para participar das “redes sociais”...
É preciso ser valente, para continuar me inserindo em alguns contextos, quando na verdade me sinto excluída pela própria vida... porque a solidão adoece...
Sou valente porque na minha fraqueza, na minha fragilidade, Deus me torna forte. 
Sinto-me às vezes anestesiada, atordoada, chego a ficar sem o ar, mas percebo que algo mais forte me sustenta, me levanta, me coloca em movimento, sopra meu rosto, sacode meu corpo como fazemos quando um filho quer dormir após bater a cabeça em algum lugar e precisamos mantê-lo acordado.
Deus cuida de mim para que eu seja valente, pra talvez ajudar a outras mães, assim como eu, para repassar essa experiência para outros que por coisas menores querem sucumbir...
Sou guerreira, sou valente, sou forte, sou revoltada, sou triste , sou frágil, sou amável, sou amiga, sou companheira, sou mulher, sou mae!

domingo, 5 de abril de 2020

MÃE DE UTI

Eu Sempre Serei Mãe De UTI, mesmo não estando no momento.. pois quem passa por isso jamais será a mesma pessoa...

EU ADMIRO TODAS MÃES DE UTI.
A todas as mães e pais que conhecemos nessa jornada...

Quem foi mãe de uti sabe como é complicada a temporada de quem necessita passar neste lugar. Sabe a loucura que é cada dia, cada visita, cada palavra do médico. Cada saída, cada chegada.
Mãe de uti não dorme direito, come qualquer coisa (quando come) e tudo que faz é ficar perto da cria olhando. Quando não pode tocar, olha e torce. Fala, sussurra, ora, vibra, dá passe, faz oração, chama o nome de todos os santos. Ora pelos médicos, pelas enfermeiras, pelas assistentes, pelo hospital inteiro, pela humanidade. Lê todos os salmos, faz força com o pensamento, vê anjos em volta do leito. Aceita todas as religiões, toda força que vier positivamente é muito bem-vinda.
Quando toca seu bebê tenta passar toda sua força, até mesmo sua vida através de sua mão, tenta doar algo para tirar sua criança dali logo e tê-la consigo.

Se você  conhecer uma mãe de uti, não precisa dizer muita coisa, não precisa perguntar muita coisa, só diga que logo ela estará em casa com seu bebê. Mesmo que a situação seja a mais complexa possível, isso é o melhor a dizer, porque esperança de mãe de uti é a última a morrer. Enquanto bate o coração, mãe de uti espera tudo de volta.

Mãe de uti não descansa, não lembra de comer, não conversa sobre outra coisa. Tudo que ela pensa dia e noite é: "Quero minha criança nos meus braços hoje, bem longe daqui".
Médicos, não perguntem a uma mãe de uti até que ponto ela sabe o que está acontecendo. Cheguem e falem logo. O suspense que existe nas visitas é sufocante, cada passo do médico em sua direção é visto como em câmera lenta, e a cada plantão ela precisa ficar repetindo a mesma história, isso é desgastante. Larguem esses protocolos!

Muitas vezes mãe de uti fica sozinha com sua esperança, pois todo mundo já não vê mais chance. Deixem-na ir em todas as visitas, deixem-na entrar. 
Deixem-na acompanhar seus filhos, paciente com acompanhante melhora mais rápido, o filho se sente protegido e a mãe bem mais calma.

Mãe de uti aprende a lavar das mãos até o cotovelo, a não tocar em nada depois, a andar com braços dobrados empurrando portas com os quadris, e vive cheirando a álcool gel. Seus olhos são atentos a cada medida tomada pelos profissionais dentro da sala. Seus olhos são atentos às máquinas, números, sondas, horários, suas perguntas são infinitas. E sempre pedem um exemplo de alguma criança que esteve assim e se salvou. Se sentem mais conhecedoras de suas crias que a própria medicina. Deixem-nas. Seus corações aceleram a cada visita que não podem fazer por motivo de intercorrência com algum dos outros pequenos pacientes.

Mãe de uti não acredita mentalmente quando o médico diz que o bebê piorou, exclui a informação da mente, repreende, acha que é tudo exagero. Mesmo que o coração aperte sentindo que é real. Aliás, não tem como distinguir o que é real. É um estado emocional que te deixa fora do corpo, ora está no médico, ora está na criança, ora está em um aparelho...seu ser muda de lugar a todo momento.

E elas também comemoram cada bebê que vai pra casa, choram a dor de outras mães que não tiveram a mesma sorte, como se fosse sua própria criança. Sentem medo, sentem vontade de que aconteça o mesmo com elas e também possam sair. E por vezes se perguntam porque não foi sua vez. Mas não há um pingo de maldade em seus pensamentos, porque elas jamais desejam o mal para obterem o bem (nem teriam tempo para isso). Elas querem que todas crianças saiam, e até convivam, sobreviventes daquele lugar numa grande festa de 1 aninho.

Ofereçam abrigo a uma mãe de uti, deem colo, coragem, contem casos de sucesso, dirijam por elas, cuidem de suas casas,  isso é o que realmente funciona com uma mãe nesta situação. Esta mulher nunca mais será a mesma. Independente se sai dali com os braços preenchidos ou não.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Coração de uma Mãe

O coração de uma mãe é um abrigo para a saudade, abrigo para as lembranças de tudo que sempre sonhamos em ter e viver.
No coração materno é guardado sentimentos inexplicáveis por aqueles que daríamos a vida para ter aqui. Nele está o amor, a dor, a lágrima contida, a saudade enlouquecedora, o grito que guardamos para nós...
O coração de mãe é um abismo profundo capaz de manter os sentimentos vivos por toda vida. E da mesma forma que nós mães amamos nossos bebezinhos no nosso ventre antes mesmo de conhecer, também amamos infinitamente nossos anjos, não podemos vê-los porem, eles estão aqui VIVENDO dentro de nós. 
O coração mantém os momentos guardados para que quando a saudade chegar com tudo, possamos relembrar e sonhar. 
O coração é a morada dos sentimentos mais puros e sinceros. E apesar de muitas vezes doer e estar em pedaços e nele que nossos anjos têm vida... é nele que guardamos o maior amor do mundo, amor que supera qualquer distância ou circunstancia... AMOR que transborda! 
Força Flavia Arnaud amo você!!!

terça-feira, 15 de outubro de 2019

PERDER UM FILHO AINDA BEBÊ. 

É escutar a pior notícia da vida: - Não encontramos batimentos! -Sinto muito, seu filho não resistiu. É acordar e perceber que não é um sonho, é mesmo um pesadelo. É recomeçar mesmo sem saber qual caminho seguir. É sentir-se inferior à outras mães por não ter conseguido manter vivo o milagre da existência. É todo dia tomar um remédio chamado tempo. É alimentar-se de lágrimas. É saber que isso acontece com muitas pessoas, mas não sentir alívio por não estar sozinha. É lembrar do nosso anjo em cada situação vivida. É imaginar como ele estaria hoje. É chorar ao ver uma mãe com um bebê no colo. É viver construindo infinitos. É viver com a sensação de estar faltando um pedaço de nós. É sentir solidão, porque já havíamos nos acostumado com a certeza da companhia. É descobrir sentimentos que não imaginávamos que existiam. É procurar a causa da perda mesmo quando não há como encontrar. É viver alternando fases de não desejar mais ter filhos com outras de querer conceber imediatamente. É ter acreditado que com nós não aconteceria esse imprevisto e perceber que essa sensação de proteção é falsa. É conhecer mulheres que engravidaram na mesma época e observar seus bebês no colo e ficar triste porque o seu não está ali. É conviver com o sofrimento solitário, apesar do apoio da família e dos amigos. É viver com metade do coração na terra e outro no céu. É ter que encarar de frente a sensação de incompetência, mesmo que não tenhamos culpa. É exercitar a paciência e a fé para esperar o que Deus tem reservado para nós. É descobrir que somos mais fortes do imaginávamos. É conviver com palavras de conforto e palpites que tornam nossos dia ainda mais sombrio. É viver a deslegitimação da nossa dor, "porque era só um bebê". É sorrir quando o coração está em pedaços e ter que caminhar com a alma incompleta, uma saudade infinita, um vazio que parece que nunca será preenchido e o coração transbordando de amor. É ter olheiras profundas por não ter um bebê para cuidar na madrugada. É padecer por não estar no paraíso. É comemorar cada dia que chegou ao fim, com a sensação de sobrevivência. É viver de vazios e recomeços. É ser mãe de colo meio cheio e meio vazio. É carregar um peso infinitamente maior do que o de um bebê. É ter nos olhos as marcas do mapa da nossa dor. É ser um lar da saudade. É ser habitação da eternidade. É resplandecer a luz e o amor eterno por um filho que estará para sempre tatuado na alma. É ser um milagre a cada amanhecer. É aprender a ser mãe sem tocar, sem ver. É viver a maternidade na ausência, ignorada, às avessas. É ter o rosto cansado, o corpo surrado e o olhar opaco pelo silêncio de um bebê que nunca irá chorar. É sentir saudades de tudo o que nem chegamos a viver. É ter dor pelo que não vai acontecer. É ter os pés fincados no chão, os olhos no céu e o coração voando com as nuvens. É amar com um céu de distância. É tudo isso e milhares de outros adjetivos mais. É ser eternamente mãe, porque maternidade, é eterna assim como o amor pelo filho, que não se pode ver, apenas sentir e tocar com o coração. 
Por: Helen Elias Rocha Siga 

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Uma dor sem nome

Falar de luto materno é falar de uma dor que não tem medida. Segundo relatos de mulheres que passaram por esse infortúnio, quando uma mãe perde um filho, ela morre junto com ele.  É uma dor tão profunda que, ao longo da história da humanidade, não se conseguiu dar um nome para esse padecimento. Não existe nos dicionários uma palavra que o defina. Citam a palavra “órfão” (ã) para designar filhos que perderam seus pais e a palavra “viúvo” (a) para quem perde seu cônjuge. Mas não há uma denominação específica para uma mãe que perde filho. Esta dor é inominável.
Além de muito penosa exige um grande esforço de adaptação às novas condições de vida. Tanto as mulheres quanto todos os membros da família sofrem o impacto em seu funcionamento. Embora não possa ser medida, diríamos que esta seria a mais intensa entre todas as dores.
É um baque tão profundo que muitas mulheres passam toda a sua existência tentando se refazer.  Algumas não se recuperam jamais. É uma espécie de tsunami cerebral que perpassa a linha tênue da loucura. Todos os testemunhos são unânimes: é uma dor “para sempre”.
Segundo relatos de mães enlutadas é uma experiência que “esvazia o sentido da vida” e que é preciso “reaprender a viver". Muitos movimentos têm que ser feitos para que essa mãe possa se reconstruir. 
Esse rompimento da lógica e da infalibilidade da vida, que fazia essa pessoa acreditar que estava sendo amparada por certezas absolutas, de uma hora para outra, lança essa mãe, agora enlutada, em um lugar subjetivo onde não há mais controle e não há mais certezas.
Tudo aquilo em que ela acreditava, tudo aquilo que dava base a sua existência perde totalmente o sentido. Ela é obrigada, pelas circunstâncias, a lutar pela a sua própria sobrevivência psíquica. E, aos poucos, começa a repensar todos os seus conceitos. Uma mudança radical se faz necessária para que ela possa suportar a nova realidade. Começa, lentamente, um movimento de ressignificação para sobreviver à essa situação traumática .
Esse processo de “despedida” de uma lógica que embasava a vida anterior é relatado com frequência e traz um isolamento muito significativo para as pessoas que o vivenciam. Muitas mães dizem que os valores que passaram a permear as suas vidas atuais se tornam muito diferentes dos valores das pessoas que a cercam e que não passaram pela mesma experiência.  
Desta forma, algumas evitam frequentar determinadas amizades porque percebem que não pensam mais como pensavam antes. Enquanto suas reflexões estão mergulhadas em pensamentos filosóficos que buscam a razão da sua existência e do irreversível fim da vida humana, elas têm a impressão que o mundo ao seu redor continua o mesmo (e continua) sempre girando em torno de coisas que não fazem o menor sentido (para elas).  
Seguindo essa reflexão, os relacionamentos tornam-se insossos e desinteressantes e a tendência passa a ser o isolamento intelectual e físico. A busca pela leitura é relatada como um artifício utilizado por muitas mães para se distanciar socialmente e para aliviar os seus dias. 
Outro ponto importante a ser dito, no âmbito do luto, é sobre a qualidade do vínculo estabelecido com a pessoa que partiu. Segundo Parkes, “a força de um vínculo e a intensidade e duração do luto resultante quando tal vínculo é interrompido é proporcional ao valor genético da pessoa perdida”. 
Pressupõem-se que os filhos serão os responsáveis pela continuação da existência de uma família. E não se pode esquecer que há também a expectativa da chegada dos netos. Esta é uma das explicações dadas para o forte impacto causado quando há morte de jovens. Perde-se o filho, perde-se também a ordem sucessiva. Há uma inversão da ordem natural das coisas desafiando as expectativas.
A tudo o que foi relatado acima, pode-se adicionar sentimentos como a raiva, a incompreensão, a não aceitação do fato em si, a falta de fé, o desânimo e outros mais. Para os que convivem com esta mãe, fica a impressão que ela se tornou uma pessoa mais densa, mais crítica e, consequentemente, mais difícil de se relacionar. 
A fim de se fazerem ouvir muitas passam a contar a sua história em forma de livros. Há uma vasta literatura narrativa sobre o tema do luto materno, contudo vale a pena frisar, que na sua maioria, essa literatura é escrita principalmente por mães que, no auge de seu desespero, quiseram, de forma terapêutica, fazer diários que relatassem o trabalho interno que fizeram para assimilar o que estavam sentindo. E, sobretudo, para deixar seus depoimentos registrados para outras mães que viessem passar pela mesma experiência.  
Sendo assim, uma extensa produção de livros é publicada criando uma aliança entre mães que se apoiam mesmo sem terem tido a oportunidade de se conhecer. O livro Paula, de Isabel Allende, é um bom exemplo.
Um outro fenômeno interessante se instaura: as mães que perderam filhos se adotam entre si. Há um forte vínculo entre elas. Uma solidariedade que ultrapassa o fato de haver ou não uma amizade duradoura. Elas trocam facilmente segredos e intimidades sem nunca terem se visto antes. A necessidade de falar é maior que tudo.
Elas costumam participar de páginas de rede sociais falando abertamente de suas dores e trocando experiências. São vozes expressivas em grupos de ajuda, fundam organizações de cunho social, organizam cartilhas com temas exclusivos e engajam-se em movimentos em prol de causas específicas.
Junto com a crescente violência das cidades grandes, surgem grupos, por exemplo, de mães de policiais que se unem para melhorar as atuais condições da classe. E outros, tais como: de estudos sobre o luto, de mães vinculadas a movimentos religiosos de todos os tipos, de mães de chacinas, de desaparecidos, de suicidas, de acidentes de trânsito, grupos terapêuticos de mães enlutadas e outros mais.  Esse movimento multiplicou-se rapidamente de forma significativa e pode-se afirmar que são grupos que conseguiram uma verdadeira representatividade junto a líderes políticos.
O movimento de participação em grupos de apoio é, com certeza, de suma importância no trabalho de luto. A partir desses encontros as mães passam a falar abertamente sobre  o tema, se vêem umas nas outras e,   sobretudo abrem-se para a possibilidade de ressignificação da existência.

Márcia Noleto é Psicóloga Clínica. 
Formação em Fenomenologia Existencial (IFEN).
Voluntária no Projeto "Do Luto à Luta".

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Principio da vida / morte de um filho

Quando ocorre a morte de um filho, os pais sentem um choque profundo e forte com essa dor, pois eles sofrem e choram a perda de – um pedaço de si mesmo, que nunca mais voltará, um pedaço da alma que se parte em centenas de pedaços e nem o tempo, com sua sabedoria, será capaz de juntar e colar esses estilhaços.Os pais acreditam que segundo a lei da natureza e divina deveriam morrer antes de seus filhos. Mas isso, infelizmente, não é um princípio da vida. O escritor José Saramago resumiu essa dor: “Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado”.Nesse momento muitos pais clamam a Deus que troquem uma vida pela outra. São manifestações de corações despedaçados por um sentimento insuportável. Cada pai e mãe sentirá a dor da perda do jeito que as condições lhe permitirem. Dor é dor e nunca conseguiremos entender tudo que percorre na mente e no peito dos pais que vivenciam a perda dos seus filhos.A evolução da vida continua e os pais sabem que é preciso aos poucos recompor o que está esfacelado, da maneira que puderem e mesmo com as feridas ainda abertas, para superar o difícil caminho do luto.